quinta-feira, julho 09, 2009
Pensando bem...
Conheci a Bahia em 1996, num destes pacotes prontos: uma semana de praia, mar e tempo cinzento – março, época de chuva em Porto Seguro – e mesmo sem sol, me apaixonei. O espaço, o mar aberto, a praia limpa, a falta de turistas propiciou um encontro transcendental, altos papos íntimos “de migo para comigo”. Voltei renovada para a correria do dia a dia em Foz, trabalho, calor, muita gente, mas... “ê, Bahia-ia, Bahia que não me sai do pensamento, ai”... em 2003 surgiu a oportunidade de transferência para a ilha de Itaparica, “lugar paradisíaco a 40 minutos de Salvador”, como dizia o anúncio que me seduziu. E como andava facinha, facinha, fui: eu, a filha de 16 anos, o computador, o cavalete de pintura e dezesseis caixas de mudança. Ficaram a filha mais velha, começando a faculdade noutra cidade; o caçula, iniciando a experiência de morar com o pai, aos 12 anos de idade e amigos raros, dos quais trago saudade imensa. E na Bahia, a de morar, não a de férias, alguns choques – uns básicos, alguns gritantes, uns sutis, outros hilários, alguns difíceis de lidar. E a permanente questão: porque insisto? Outro dia, briga grande com uma amiga: “porque esse pessoal do sul é tudo metido a besta, pensa que é europeu!”. Ai, ai. Ai, ai. Que culpa tenho eu se é baixa sua auto estima? O que ela, que nunca saiu da Bahia, pode falar do “povo do sul”??? (Que aqui na Bahia é todo o território nacional do Espírito Santo pra baixo...). Não vou entrar no mérito da questão, de quem está certo ou errado – até porque nem sempre há certos e errados, não é? Mas ontem um amigo a quem admiro muito começa com esse papo de “o povo do sul se acha”, “o povo do sul isto”, “o povo do sul aquilo”... ele, que já me confidenciou inúmeras vezes se envergonhar da educação dos locais, ele que vive suspirando por morar no sul (Curitiba é sua paixão), pra me molestar começa com esse papo besta, e a perguntar sobre os grandes expoentes da cultura nacional, quem são os grandes escritores, os grandes músicos, e começa a citar os baianos e acha que tudo o que é bom só vem daqui (um dia ainda paro pra fazer uma lista e esfregar no nariz de um ou outro metido a besta que me encher a paciência). Me pego pensando nas diferenças – até que ponto são ruins, até que ponto são boas. E no que me faz permanecer. O amor? Pode ser o amor – eterno enquanto dure, como dizia o poetinha (e está durando), e me faça feliz feito essa vida não faz (olha Leminski aqui! E está fazendo.). O mar? “Quando vi o mar a primeira vez...”. A inconstância do meu pensamento, do meu coração? E porque, afinal, saber? Permaneço, e pronto. Apesar da falta. Da saudade dos filhos, da mãe, dos amigos. De hortaliças frescas, de educação, sei lá. Sei que permaneço, incompleta e feliz. Ou completa e infeliz. Mas por opção. Apesar.
terça-feira, junho 16, 2009
A eterna estrangeira
"Quando me perguntam por que quis ser jornalista, sempre respondo que me fascina contar histórias. Por que não foi ser escritora, então? Falta-me talento."
... Quando eu tinha aí uns nove anos de idade já sabia o que queria da vida: ser mãe. E jornalista. Porque jornalista, uma menina de classe média baixa dos anos setenta? Não me pergunte - não saberia responder. Neta mais velha de uma grande família alegre e bagunceira, mas sem nenhuma história de 'leitores' na bagagem - a não ser meu amado tio Dner, que morreu exatamente um dia após meu aniversário de seis anos - quando seu filho mais novo também havia completado um ano - e talvez isso explique o amor tão forte que sinto por este primo hoje homem feito, de quase dois metros de altura e espírito bonachão, mas na época um menininho lindo de cabelos dourados. Mas isto é outra história. Uma das lembranças mais queridas que tenho é da biblioteca de meu tio - professor universitário, único formado de uma leva de seis irmãos 'Deus' - mas isto também é outra história. A biblioteca era um lugar mágico, com paredes cobertas de armários cheios de livros... lembro que todos os dias eu queria visitar minha tia, e chegando lá fugia, assim que possível, para a biblioteca do tio, onde me perdia lendo coleções e coleções de livros infantis que ele havia comprado para seus filhos, que não sabiam o valor incalculável daquele tesouro que fazia meus olhos brilharem como se, cada vez que me encontrava ali, fosse noite de natal... lembro-me de me esconder sob a escrivaninha na biblioteca por vezes incontáveis para poder ler em paz, sem ninguém falando na minha cabeça "essa menina precisa parar de ler desse jeito, isso faz mal!"... outra lembrança boa é meu avô João, sertanejo rude e iletrado, que despertava até medo, tamanho o respeito na família... pois este homem rude me colocava no colo e contava 'causos' intermináveis de fantasmas, de mulas sem cabeça, de luzes que brilhavam em cemitérios em noites escuras, de onças e caçadas e tantas outras aventuras e fazia minha imaginação voar e despertou a vontade de também ser contadora de histórias... e tudo o que posso imaginar é que quis ser jornalista por influência direta dessas duas pessoas tão importantes na minha vida - e que talvez nunca tenham imaginado isso. É, acho que quis ser jornalista porque gosto de contar histórias... e o desejo de criança se realizou, fui mãe - três vezes. Mas ainda não sou jornalista - embora goste de contar histórias.
"Para permanecer nessa ideia, termino dizendo apenas que sou jornalista porque gosto de contar histórias. Gosto de contar histórias porque me gusta conhecer histórias. E gosto de conhecer histórias porque há muitas delas esperando para serem contadas, apesar de quase ninguém perceber. Infelizmente, algumas narrativas não podem ser vividas. Mas contadas, imagino eu, cada uma daria um clássico, embora se fosse eu a autora da obra não saberia como terminá-la. E uma história inacabada é um drama para qualquer escritor, ainda que se trate de um amador."
... Então. num desses passeios pela net, sem rumo e sem prumo, fugindo do material que me olha de sobre a cama para estudar, vou ler o blog de minha filha, ídolo incondicional. E vejo um texto, "Papai Noel veio em junho" http://tatilazz.blogspot.com/2009/06/papai-noel-veio-em-junho.html, de uma sua amiga. E vou ler. E me emociona o texto, a história, seu pai. Talvez a saudade de meu pai, que já não posso mais curtir, tenha potencializado minha emoção - mas não acredito. Sei que amo o texto que leio, e resolvo ler mais embaixo 'despertador', 'três fatos', 'histórias'... e descubro que gosto muito, muito de seu jeito de escrever, de como expõe os sentimentos, de como encadeia as idéias, de como usa as palavras, de como me faz lembrar de porquê eu sonhei, um dia, ser jornalista. E sinto vontade de contradizê-la quando ela diz 'falta-me talento'. Escritora nata, contadora de histórias da melhor qualidade, jornalista de talento, uma mulher traçando seu caminho e escrevendo sua história e muitas outras que valem a pena... grande garota, essa menina Tatilazz, Tatiana Lazzarotto, a filha do Papai Noel, de quem já ouvi tantas histórias contadas por Paulinha e que conta histórias que eu gostaria de ter contado, que faz poemas que eu gostaria de ter feito... autores que me fazem sentir assim despertam minha total admiração.
... A partir de agora, sou sua fã. Declarada, porque fã, na verdade, eu já era. :)
sexta-feira, junho 05, 2009
Do fundo do baú - 02
Não se acostume com a palavra amor.
Não faça dela um lugar comum.
Não a banalize.
Não a utilize em vão.
Que cada vez que seus lábios a pronunciem
venha com sabor de fruta madura colhida no pé
daquelas que dá vontade de agarrar com as mãos
levar à boca
trincando os dentes
se fartando em seu sumo e polpa.
Que cada vez que o som sair de sua boca
traga o prazer da água cristalina
bebida na fonte
aplacando a sede mais feroz.
Que a palavra amor seja em seus lábios
verdade e sentimento.
E em seu coração, todo imensurável bem que é.
quarta-feira, junho 03, 2009
Do fundo do baú - 01
Arrumando a casa chego, finalmente, aos papéis.
Escritos antigos, rascunhos, poemas, crônicas, enfim... coisas que nem me lembrava mais, palavras rabiscadas em momentos indefiníveis na memória... para reorganizar, colocar aqui um a um, por um tempo. Até porque minha produção hoje é pífia, há muito não escrevo, há muito não tenho 'surtos' criativos... então, do fundo do baú, um poema - meio erótico, talvez. Filhas, não se escandalizem. Essa, afinal, é sua mãe - mulher antes de tudo.
...
Ouço o barulho do portão
nem bem chego à porta
meu homem
todo mãos
e mãos
e mãos
e língua
e beijos
me tira o fôlego
e nem sei
minhas mãos
onde vão.
Seu beijo me toma toda
e o vestido no chão
apara o gozo
protege o corpo
desse urgência
sua
minha
sempre.
Então
brincando
displicente
com um bico
do meu seio
me olha
sorriso maroto
'oi, meu amor.
senti saudade.'
Essa é minha verdade.
quarta-feira, maio 20, 2009
terça-feira, abril 28, 2009
Pequeno monólogo para você
Confesso que, ao saber de sua existência, minha primeira reação - depois da raiva e da indignação - foi curiosidade: é bonita? Inteligente? Bem humorada? Melhor que eu em quê? Creio ser natural da essência feminina esta curiosidade sobre 'a outra', quando se depara com sua existência.Depois a identificação, afinal haviam semelhanças: envolvidas com o mesmo homem - de maneiras diferentes, pode ser, mas cada uma com uma história romântica (?) pra contar sobre este envolvimento. Eu havia feito há um ano uma cirurgia a que você se submeteria exatamente um ano depois. Ambas de signos de fogo, fortes, independentes, bem resolvidas (?). Depois veio a reflexão, a ponderação. Cobrar algo de você? Impossível, pois não nos conhecíamos, não tínhamos laço algum, você não me devia nada - nem consideração. Para cobrar, necessário ser à pessoa certa, aquele que colocou você na minha vida, mesmo que indiretamente e sem permissão - com ele, sim, haviam laços, carinho, amor, entrega, consideração, confiança. Se fosse pra cobrar, o devedor era ele, não você. Possível perdoá-lo e a tudo o que aconteceu, o modo como aconteceu? Possível? Talvez, com maturidade e todo o aprendizado de vida que eu trazia. Tentei - continuo tentando. Possível perdoar sua existência no contexto? Quem sabe? Então conversamos, eu e você. Enorme conta de celular, necessária porém - pelo menos pra mim. Pra tentar absorver, entender, aceitar. E experiências anteriores, inflexibilidades anteriores, arrependimentos anteriores me levaram a 'perdoar' e persistir, 'vejamos se dá certo'. Muito contribuiu pra isso nossa conversa 'não, eu não o quero mais, de maneira alguma...'. Porque existem coisas que eu não sei dividir, sabe? E relacionamento amoroso é uma delas. E ele me conta que você ligou várias vezes querendo vê-lo, que mandou inúmeras mensagens, que mandou e-mail, que o procurou - até se matriculou na mesma academia que ele! Penso com meus botões que você não foi sincera comigo (nem tinha porquê, não é mesmo?), e está certa: batalhando por algo que quer, que deseja, que acredita conseguir. E digo a ele: 'meu compromisso é com você. Que ela o procure, tente seduzi-lo não é problema meu - que você não resista, é'. E sigo minha vida, alheia à você que insiste em se fazer presente, visitando amiúde meu perfil no orkut, criando fakes pra se aproximar de mim, convidando meus amigos (reais) pra lhe adicionarem, buscando referências em coisas do meu universo (fragmentos)... ainda assim, sigo meu caminho, embora não resista a breve interlúdio (monitorando?). E pronto. Não visito seu perfil - acho meio mórbido isto de ficar olhando, querendo saber - não, não sou alienada, apenas não sou encanada. E sim, acredito de verdade que seríamos amigas se nossos caminhos houvessem se cruzado em circunstâncias diversas: você parece ter senso de humor, parece inteligente, parece ter bom gosto, enfim, parece uma pessoa legal, e penso que havemos de ter muita coisa em comum. Mas as circunstâncias não foram as mais propícias pra se cultivar uma amizade entre nós, há de convir comigo. E continuo caminhando, alheia à você. Aí descubro que você mandou email pra minha filha (mais que um), contribuindo pro blog dela, onde conta que acompanha meu blog, e nosso blog. E continua visitando meu orkut, no dia do seu aniversário inclusive, será que queria os parabéns? Cabe aqui ser honesta: está começando a me incomodar. Por que isto, esse acompanhamento constante? Gostaria muito que você passasse uma borracha sobre o que aconteceu, sobre minha existência, enfim, e me ignorasse. A mim, aos meus amigos, aos meus filhos. O mundo é bão, Sebastião, já dizia uma grande amiga de minha filha. E acrescento: o mundo é enorme. Tanta gente nele pra você conhecer, pra você conversar, pra você ser amiga... 'vai, Carlos, ser gauche na vida', já dizia Drummond. E parodio o poeta: vai, Petit Jolie, ser feliz na vida.![]()
quinta-feira, abril 09, 2009
quinta-feira, abril 02, 2009
"Não me acho..."
Durante muito tempo convivi com pessoas que, apesar de não fazerem diferença na minha vida, não gostavam de mim. De alguma forma me achavam metida, bossal, pedante, prepotente, petulante e todos os outros adjetivos nesta linha que se possa pensar - e, como boa leonina que sou, me surpreendia quando apenas desconfiava que havia alguém no mundo que podia não gostar de mim. 'Como assim, não gosta de mim? Se eu nem conheço essa pessoa...' ou 'Mas se nunca fiz nada à ela, nem de bom nem de ruim, porque não gosta de mim?'. Tinha dificuldade em entender que às vezes era assim: justamente por não fazer parte do meu universo aquela pessoa não gostava de mim. Havia também aquelas poucas de quem eu não gostava, e não queria que gostassem de mim também - e realmente sempre foi muitomuitomuito pouco o número de pessoas que eu não gostasse, por um motivo ou outro. Gosto de gente, e ponto.
Mas houve um tempo em que algumas pessoas não gostavam de mim por causa da minha atitude, e a culpa disso foi toda de minha família, que me fez quem sou. Descobri que tem gente (mais do que seria desejável) que não tem auto confiança, cujo amor próprio é frágil e delicado, e que não consegue conviver com pessoas que 'se acham'. E feliz ou infelizmente, olha eu aí incluída neste grupo. Ops! "Não, mãe, você não se acha: você tem certeza!" :)
E sim, se me acho, sou uma achante inocente - a culpa é toda de meus avós, de meus pais, de meus tios, de meus irmãos, de meus primos, de meus filhos, de meus sobrinhos, de meus padrinhos, de meus amigos... e explico: desde que me entendo por gente, me acompanha a sensação (tá, tudo bem, descontando poucos momentos de fragilidade emocional...) de ser amada. Cresci com a certeza do amor incondicional de minha família: me mostravam sempre que eu era bonita, meiga, inteligente, esperta, criativa, querida; que os erros que cometia todos tinham solução, de que o mundo era o limite pra mim e os meus sonhos... havia sempre um colo quando eu caía, um ombro quando eu chorava, um abraço quando ficava carente; um ouvido pras minhas canções, pros meus sonhos; uma resposta pras minhas dúvidas; e infinita esperança sobre minha felicidade... como não crescer me achando?
Tudo isso desenvolveu em mim a auto confiança e o amor próprio, o que me faz caminhar pela vida de cabeça erguida, ombros em prumo, nariz erguido olhando o sol e as estrelas... apesar das dúvidas, dos medos, das encruzilhadas, dos tropeções. Por isso a felicidade é parte de mim.
E acho que consegui passar um pouquinho disso para os meus filhos... mas tenho certeza de que errei em um ponto: eu sempre acreditei, e sempre disse :'conheço muito ex marido e ex mulher... mas não conheço ex mãe, ex pai, ex irmão (o que, inclusive, lembra outra história legal de contar com o San), ex filho'... nunca coloquei o amor de um homem no mesmo patamar do amor de família (sabe, né? Sempre há a possibilidade de se tornar ex...) e hoje acredito que estava errada. Afinal, não é um homem e uma mulher o ponto de partida pra família que dá tanta segurança? Talvez tenha me faltado maturidade pra ver com os olhos certos isso aí... mas sempre pensava que homens podem trair (não que isso seja imperdoável ou que mulheres não traiam, é que conviver com traição é complicado e mulheres não fazem meu tipo...)
mas hoje caminho pela vida com olhos de ver além e maturidade de entender o que antes não aceitaria, e trago essa certeza no coração: um homem também alimenta nossa auto confiança, nosso amor próprio, nossa auto estima. Um homem também pode nos fazer sentir sempre linda, inteligente, criativa, sensível, importante, sedutora, sexy, essencial... o amor de um homem pode fortalecer nossos passos pela vida.
É muito bom sentir-se amada.
É muito bom.
quinta-feira, março 26, 2009
Lembranças
Aquele dia não houve aula - a tempestade que havia castigado a cidade tinha deixado a escola sem luz.Voltávamos para casa, eu e meu irmão, como sempre, a pé - afinal, a distância não era muita, e na verdade este percurso era feito com muita farra e brincadeiras, no alto de nossos dez e oito anos de idade. No meio do caminho tinha uma praça, tinha uma praça no meio do caminho, onde amávamos correr livres e soltos, gastando boa parte do tempo de volta pra casa... mas neste dia em particular estava toda molhada e meio alagada em alguns pontos, então não nos demoraríamos com brincadeiras, mas vínhamos rindo e conversando, quando meu irmão saiu correndo:
- Arrahhhhhhh!!! Eu sou o Tarzannnnnn-êêêêiiiiiaaaaaaaaôôôôuuuuuuuuuuuuu!!!!!!!!!
Só percebi que seu grito na verdade não era a imitação do herói quando, num solavanco, ele foi atirado bem longe do 'cipó' onde havia se pendurado pra brincar de Tarzan, e caiu num tombo feio e barulhento, começando a chorar... na verdade o pobrezinho havia pulado com toda vontade num fio de energia rompido pela chuva, mas ainda com corrente elétrica... depois de acudir, apavorada, e ver que estava tudo bem, me acabei em um riso que parecia não ter fim!
Esse episódio faz parte de uma coletânea que amamos recordar nas festas de família, regadas a cerveja, churrasco e música sertaneja...
Vez em quando dá uma saudade tão grande e tão boa de momentos assim...
quinta-feira, março 19, 2009
Do pai dos burros...
PERTENCENTE, adj. Que pertence; concernente. relativo. per.ten.cen.te.
PERTENCER, v. t. Ser propriedade de; formar; ser parte de; dizer respeito; caber; incumbir; ser devido ou merecido; ser próprio de; ser de jurisdição ou obrigação de alguém. per.ten.cer.
'PERTENCENIMENTO': neologismo criado por minha mente fértil. :)
A primeira vez em que esta palavra me veio à mente, sem saber se existia ou não (mas tudo o que tem nome existe!), foi num momento muito triste da minha vida: o velório de meu pai.
Num instante qualquer do tempo em que o corpo de meu cabeça branca era velado e pranteavamos sua partida, olhando toda a família ali, sentindo o carinho e o cuidado de todos os tios, primos, amigos nos envolvendo e protegendo, alguns vindos de tão longe apenas pra se despedir dele, me invadiu como nunca a sensação de "pertencer". De fazer parte de uma família enorme, maluca, unida, solidária. De ser parte da vida de pessoas que fazem a minha vida. De saber de onde vim, quem sou, porque estou aqui. De pertencer à uma grande unidade aconchegante e protetora, formada de várias pequenas outras unidades... me invadiu, apesar da dor imensurável que sentia naquele momento, um grande conforto ao poder ter o aconchego e o carinho de todos ali, sofrendo conosco a perda do 'tio Ney', e querendo amenizar um pouquinho que fosse a nossa dor... acho que nunca, em todo meu tempo de vida, foi tão importante a minha família toda reunida: todos os tios e primos, tanto por parte de mamãe quanto de papai, sofrendo conosco e dando força pra segurar a onda e superar a dor... a palavra que me veio naquele momento, que definia essa coisa tão boa que me invadiu, foi esta: PERTENCENIMENTO. A sensação de saber quem sou; de onde venho; que existem pessoas que, mesmo conhecendo minhas manhas e meus defeitos, me amam e aceitam como sou... a sensação de pertencer a um lugar, a um grupo, a uma célula forte. A sensação de ser amada sem restrição.
...
Para a minha mais fiel e crítica leitora, esta explicação - desnecessária, pois também ela sabe o que representa esta palavra, também ela sente exatamente o que sinto. Espero, porém, que tenha sido satisfatória. É algo mais que SHUMP - e não mensurável.
quarta-feira, março 18, 2009
Tempo, tempo, tempo.
Algumas coisas acontecem, às vezes, sem motivo - ou talvez nós é que não percebamos a razão - e mexem tanto com o sentimento da gente...
Ontem falei com mamãe pelo telefone, tão bom o papo, tão grande a saudade... tão bom este colo sempre tão pronto e cheio de aconchego...
Ontem falei com Lucia pelo Orkut, e deu uma saudade tão grande... tão boa... tão inexata...
Ontem recebi um e-mail de Marcinha, colega de faculdade, a quem nunca mais vi depois da formatura, falando sobre o último encontro da turma (já houveram vários, e não estive em nenhum...). Outra saudade, diferente, indefinível.
E um sentimento tão exato de 'pertencenimento'.
quinta-feira, março 12, 2009
Sobre o amor e sobre amar...
Já diziz Goethe que 'nada nos faz necessários a não ser o amor'.
...
Tão bom olhar a lua cheia, imensa, iluminando a varanda de casa e saber que você olha a mesma lua na janela do seu quarto, e essa lua tão cheia nos aproxima... tão bom saber que o lugar ao seu lado na cama está guardado pra quando eu chegar... tão bom ter o ninho dos seus braços pra me aconchegar e fazer me sentir protegida... tão bom nosso abraço e nosso encaixe... tão bom seus dedos enrolando meus cabelos enquanto conversamos baixinho... tão bom sua pele na minha, seu calor misturado ao meu, seu colo, seu cheiro, seu olhar carinhoso e seu jeito protetor... tão bom você na minha vida!
...
Tão bom me sentir necessária...
quinta-feira, março 05, 2009
Pequeno balanço 'sentimental'
1. Minha mãe mora em Goiânia.
2. Meu irmão mais velho mora em Itapeva.
3. Meu irmão mais novo mora em Goiânia.
4. Minha irmã mora em Goiânia.
5. Minha filha mais velha, que passa um tempo comigo, está programando sua partida.
6. Minha filha mais nova mora em Curitiba.
7. Meu filho mora em Curitiba.
8. Meu namorado mora em Salvador.
9. Tenho (verdadeiros) amigos em Foz do Iguaçu.
10. Tenho (verdadeiros) amigos em Curitiba.
11. Tenho (verdadeiros) amigos em Corbélia.
12. Tenho (verdadeiros) amigos em Mar Grande.
13. Tenho (verdadeiros) amigos em Goiânia.
14. Moro em Valença.
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Acho que não bato bem das idéias, afinal.
quarta-feira, março 04, 2009
Agenda da Tribo, ainda
Não gosto de quem tem sempre certeza
de quem não suspende a respiração por um amor
de quem encerra todas as frases com ponto final
de quem não exclama, diz que não ama
de todos aqueles que nunca passaram mal
Não gosto dos que nunca sentiram a chuva em seus rostos
não gosto de quem nunca morreu de rir
nem chorou a noite inteira por alguém
Não gosto dos que não gostam de cachorro
dos que não tem sua música preferida
filme preferido
dos que sempre tanto faz
dos que nunca querem mais
Fernanda Michele Maciel Sarate
quinta-feira, fevereiro 19, 2009
Poema
sinto, meus filhos
se só lhes deixo
palavras ao vento
retalhos (gastos)
de versos inacabados
dívidas de dúvidas
pra que vocês (a) paguem
(cem conflitos)
dividam entre si
(e transmitam aos seus)
a riqueza de espírito
(Valéria Tarelho)
...
Não sei quem é a autora, não tinha ouvido falar dela até este momento, quando me deparo com este poema no Livro da Tribo de 2009, nona página. Gostaria de tê-lo escrito. Como não o fiz, o reproduzo com o devido crédito. Serve de testamento para mim também.
...
domingo, fevereiro 15, 2009
"Mais um ano que se passa, mais um ano sem você..."
"... já não tenho a mesma idade, envelheço na cidade..."
Hoje é um aniversário.
Ao contrário de tantos outros, não há bolo, não há balões, não há docinhos, nem festa, nem alegria. Talvez já exista um pouco de paz. Talvez a dor já não seja tão grande; talvez, por ser companhia constante, já tenha me habituado a ela, talvez. O que sei é que já posso me lembrar sem lágrimas - quase sempre. Salvo poucas vezes em que sou pega de surpresa, ao som de 'fio de cabelo', num momento frágil, e aí não consigo mesmo segurar a onda - é tão forte sua presença, sua voz cantarolando, o som de seus passos no corredor, o seu sorriso ao pegar no pé de alguém que não dá pra segurar - e em silêncio as lágrimas descem.
Penso muito no senhor, paizinho, amiúde. Não, não penso conscientemente nem deliberadamente. Não penso na falta que me faz (apenas sinto) ou em como se foi. Penso muito em sua vida, que foi um aprendizado pra mim. Penso em todas as dúvidas e medos e anseios que o senhor teve, penso nos sonhos que sonhou e não pôde realizar, penso em tudo o que abriu mão por nós, penso em erros tentando acertar, penso na sua fragilidade não exposta, penso em como se sentia cada vez que os problemas batiam, em família, à sua porta.
Uma vez li, em algum lugar, que só conhecemos e valorizamos verdadeiramente nossos pais depois que eles se vão, e acreditava, do alto de minha soberba sabedoria, que já o conhecia e valorizava o suficiente, talvez até mais do que o senhor merecesse. Meu Deus, quem sou eu???? Quem sou eu pra pensar em julgar o que o senhor merecia????? Quem sou eu pra saber o que ia em seu coração cada vez que traçava passos em linha reta e o destino teimava em desviar para um lado, para outro, para trás? Quem sou eu pra saber de seus medos, suas angústias, quem sou eu senão a filha mimada e egoísta que só via seu próprio umbigo, achando tolamente que o mundo girava em torno dele??? Ah, Deus, como era certo o texto que li! A falta, a saudade, a certeza de não poder mais partilhar momentos alegres ou tristes, tudo isto redimensiona nossa visão, nossos conceitos, nossa fé.
Hoje faz um ano que o senhor partiu. E hoje sei que queria ter tido mais tempo pra estar junto, pra conversar, pra colocar no colo, pra pedir colo. Hoje sei, com toda certeza do mundo, que tudo o que vale a pena na vida é o amor, e que é importante estarmos juntos àqueles que amamos, e não perdermos tempo brigando, discutindo. Hoje sei mais que nunca o quanto o amei, meu pai, enquanto estava pleno de alegria entre nós, e o quanto este amor ainda é vivo dentro de mim. E o que me deixa com um pouco de paz no coração é saber que, onde quer que esteja, o senhor sabe disso tanto quanto eu - sabe de meu amor, de minha gratidão, de meu respeito e de minha admiração. Eu só queria ter tido sabedoria pra demonstrar isto enquanto estava ao seu lado - mas isto é algo que não dá pra mudar. E que vai me acompanhar pra sempre. Assim como o meu amor, papai.
A foto aí de cima foi tirada logo depois do natal de 2007, momentos antes do San viajar de volta pra casa. Pouco menos de dois meses de sua partida. O último natal em que estivemos todos juntos - e o senhor já estava tão frágil, papai. Talvez fosse melhor não colocá-la aqui - mas é pra aplacar um pouquinho essa saudade, e essa dor de saber que momentos como este não vão mais acontecer.
Fica em paz, paizinho, onde quer que você esteja, com a certeza de nosso amor e nossa gratidão por ter nos proporcionado a chance de sermos quem somos, e por ter nos permitido ser tão felizes enquanto estava entre nós.
sexta-feira, janeiro 23, 2009
Penso, logo existo.
Não devia ser sonho, logo existo? Em fase de questionamento... será que quarenta e quatro anos é muito tarde pra se descobrir? Crise tardia de identidade? Puxa! Se Lya Luft começou a escrever aos quarenta, se viveu um grande amor depois desta idade, se mudou sua vida a partir de então... Tá, tudo bem. Não sou Lya Luft, bem sei. E ainda bem, porque se fosse, perderia seu exemplo que amo citar! :) Mas como Lucemary, não posso ter essas crises? Esses questionamentos? Questiono-me desde sempre, pelo que me lembro - apesar das certezas todas que carrego comigo, desde sempre também. Lucemary. Lucemary Peres. Lucemary Peres de Assis. Lu. Looper. Coisas bobas, pensamentos bobos, questões bobas. Será? Elocubrando, apenas. Por falar nisto, existe mesmo esta palavra? Não encontro agora o 'pai' pra saber - e tô com preguiça de procurar na net. Foi só pra contar pra minha fiel, atenta e tão semelhante leitora, que faz parte, afinal: medos, dúvidas, questionamentos. Mas a melhor parte é quando a gente "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima"! Ou, como diria um leonino genuíno, quando a gente sacode a juba, arranha a garganta num rugir sensacional, olha em volta e percebe que tudotudotudo vale a pena. Até os medos revelados inadvertidamente - porque no fim, você é soberano, e pronto. Nem que seja de seu próprio mundo - ou de seu infinito particular.
quinta-feira, janeiro 22, 2009
Caminhos, destinos e afins
A gente nasce e bom... não tem muita escolha. Somos cuidados, bem ou mal, por nossos pais, a quem podemos amar ou não, e que traçam nosso caminho até que estejamos aptos a nossas próprias escolhas.
A primeira delas, no meu caso especificamente, foi o vestibular. "O que é isso de relações públicas, filha? Tem doutora antes?". Não, mãe, não tem. Na verdade não tem nem muito futuro se a gente não acredita de verdade. E na verdade essa escolha foi errada, eu queria jornalismo. Optei por RrPp por ser menos concorrido, de escore menor, e por ironia, passei com média suficiente pra jornalismo. Mas aí, pensei, posso depois fazer reaproveitamento e 'voilá': dois cursos! Que nada... no meio do caminho, outro caminho se cruzou ao meu, e juntos trilhamos outros passos que nos levaram a escrever uma grande história e três filhos e depois, nossos caminhos se separaram. E aí também não haviam escolhas, filhos pequenos e uma vida pra levar... não dava pra sonhar. Os filhos cresceram um tanto, e cada um seguiu seu caminho, entoando seu canto ao vento... e aí então, era a hora de outra escolha. E a escolha foi por voltar atrás, pra cuidar das pessoas que haviam cuidado de mim, me dado amor, me possibilitado ser quem sou... até a despedida triste, e a constatação de que, por mais que caminhemos, nossos caminhos sempre parecem incompletos, imperfeitos, inacabados. Então, mais uma vez, escolhas. Sem marido, sem filhos, sem pais, sem ninguém que precise de mim. Podendo escolher de verdade o caminho - de sonhos ou não. Meu Deus, como é difícil!!! Escolho chutar o pau da barraca, jogar tudo pro ar e ir viver na praia, com um ateliê de artesanato, vendendo sanduíche natural e escrevendo poemas... mas esta escolha, a dos sonhos, infelizmente não paga as contas. E estas, rapaz, são tantas!!!!
É isso aí. Uma pessoa, numa encruzilhada, e alguns caminhos. Qual deles escolher? Qual seguir? Será que saberei escolher o que eu quero de verdade? E o que eu quero de verdade? O que me fará feliz? Será que algo me fará feliz?
quarta-feira, janeiro 07, 2009
"Eu prefiro ser..."
"... essa metamorfose ambulante..."
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Quando as pessoas cantam esse refrão da música do Raul, esquecem o restante. Acham que 'metamorfose' aplica-se somente à aparência. Esquecem o 'do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo'...
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E eu não consigo ser assim. Mudo a aparência, mudo os sonhos, mudo as crenças - embora a essência permaneça.
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Hoje estou loira, loiríssima.
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E acredito que, contrariando Jobim, 'é possível ser feliz sozinha'...
Se bem que isto não é uma mudança, né? Já que sempre acreditei nisto...
sábado, dezembro 20, 2008
Perfil
Leonina,
ascendente em peixes.
Dragão no horóscopo chinês.
Adaga no horóscopo cigano.
Estrela no horóscopo druída.
Número de destino: cinco.
Filha de Ogum,
sob proteção de Vehuiah.
Mulher de fases, hoje sou mais eu, mais que sempre, mais que nunca. Minuano cantante em madrugada de inverno, acalanto noturno na noite insone, plena de sonhos a se realizar. Brisa suave na Bahia de Todos os Santos, sobre o mar escuro e o reflexo da lua, que envolve o corpo e faz viajar. Ar rarefeito no planalto central, sob infinitas estrelas que brilham como em nenhum outro lugar. Agitada, suave, parada. Posso ser tudo e posso ser nada. Fluida criatura sem rédea, sem freio, sem arreio... Balzaquiana, autêntica, absoluta. Hoje sou mais eu, mais que sempre, mais que nunca. (Escrito um dia pra o perfil do Orkut, publicado aqui pra não se perder...)
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