Momentos. Reminiscências. Vivências. Sentimentos. Lugares. Pessoas. Músicas. Poesias. Livros.

quinta-feira, março 26, 2009

Lembranças


Aquele dia não houve aula - a tempestade que havia castigado a cidade tinha deixado a escola sem luz.Voltávamos para casa, eu e meu irmão, como sempre, a pé - afinal, a distância não era muita, e na verdade este percurso era feito com muita farra e brincadeiras, no alto de nossos dez e oito anos de idade. No meio do caminho tinha uma praça, tinha uma praça no meio do caminho, onde amávamos correr livres e soltos, gastando boa parte do tempo de volta pra casa... mas neste dia em particular estava toda molhada e meio alagada em alguns pontos, então não nos demoraríamos com brincadeiras, mas vínhamos rindo e conversando, quando meu irmão saiu correndo:
- Arrahhhhhhh!!! Eu sou o Tarzannnnnn-êêêêiiiiiaaaaaaaaôôôôuuuuuuuuuuuuu!!!!!!!!!
Só percebi que seu grito na verdade não era a imitação do herói quando, num solavanco, ele foi atirado bem longe do 'cipó' onde havia se pendurado pra brincar de Tarzan, e caiu num tombo feio e barulhento, começando a chorar... na verdade o pobrezinho havia pulado com toda vontade num fio de energia rompido pela chuva, mas ainda com corrente elétrica... depois de acudir, apavorada, e ver que estava tudo bem, me acabei em um riso que parecia não ter fim!
Esse episódio faz parte de uma coletânea que amamos recordar nas festas de família, regadas a cerveja, churrasco e música sertaneja...
Vez em quando dá uma saudade tão grande e tão boa de momentos assim...

quinta-feira, março 19, 2009

Do pai dos burros...


PERTENCENTE, adj. Que pertence; concernente. relativo. per.ten.cen.te.
PERTENCER, v. t. Ser propriedade de; formar; ser parte de; dizer respeito; caber; incumbir; ser devido ou merecido; ser próprio de; ser de jurisdição ou obrigação de alguém. per.ten.cer.
'PERTENCENIMENTO': neologismo criado por minha mente fértil. :)
A primeira vez em que esta palavra me veio à mente, sem saber se existia ou não (mas tudo o que tem nome existe!), foi num momento muito triste da minha vida: o velório de meu pai.
Num instante qualquer do tempo em que o corpo de meu cabeça branca era velado e pranteavamos sua partida, olhando toda a família ali, sentindo o carinho e o cuidado de todos os tios, primos, amigos nos envolvendo e protegendo, alguns vindos de tão longe apenas pra se despedir dele, me invadiu como nunca a sensação de "pertencer". De fazer parte de uma família enorme, maluca, unida, solidária. De ser parte da vida de pessoas que fazem a minha vida. De saber de onde vim, quem sou, porque estou aqui. De pertencer à uma grande unidade aconchegante e protetora, formada de várias pequenas outras unidades... me invadiu, apesar da dor imensurável que sentia naquele momento, um grande conforto ao poder ter o aconchego e o carinho de todos ali, sofrendo conosco a perda do 'tio Ney', e querendo amenizar um pouquinho que fosse a nossa dor... acho que nunca, em todo meu tempo de vida, foi tão importante a minha família toda reunida: todos os tios e primos, tanto por parte de mamãe quanto de papai, sofrendo conosco e dando força pra segurar a onda e superar a dor... a palavra que me veio naquele momento, que definia essa coisa tão boa que me invadiu, foi esta: PERTENCENIMENTO. A sensação de saber quem sou; de onde venho; que existem pessoas que, mesmo conhecendo minhas manhas e meus defeitos, me amam e aceitam como sou... a sensação de pertencer a um lugar, a um grupo, a uma célula forte. A sensação de ser amada sem restrição.
...
Para a minha mais fiel e crítica leitora, esta explicação - desnecessária, pois também ela sabe o que representa esta palavra, também ela sente exatamente o que sinto. Espero, porém, que tenha sido satisfatória. É algo mais que SHUMP - e não mensurável.

quarta-feira, março 18, 2009

Tempo, tempo, tempo.


Algumas coisas acontecem, às vezes, sem motivo - ou talvez nós é que não percebamos a razão - e mexem tanto com o sentimento da gente...
Ontem falei com mamãe pelo telefone, tão bom o papo, tão grande a saudade... tão bom este colo sempre tão pronto e cheio de aconchego...
Ontem falei com Lucia pelo Orkut, e deu uma saudade tão grande... tão boa... tão inexata...
Ontem recebi um e-mail de Marcinha, colega de faculdade, a quem nunca mais vi depois da formatura, falando sobre o último encontro da turma (já houveram vários, e não estive em nenhum...). Outra saudade, diferente, indefinível.
E um sentimento tão exato de 'pertencenimento'.

quinta-feira, março 12, 2009

Sobre o amor e sobre amar...


Já diziz Goethe que 'nada nos faz necessários a não ser o amor'.
...
Tão bom olhar a lua cheia, imensa, iluminando a varanda de casa e saber que você olha a mesma lua na janela do seu quarto, e essa lua tão cheia nos aproxima... tão bom saber que o lugar ao seu lado na cama está guardado pra quando eu chegar... tão bom ter o ninho dos seus braços pra me aconchegar e fazer me sentir protegida... tão bom nosso abraço e nosso encaixe... tão bom seus dedos enrolando meus cabelos enquanto conversamos baixinho... tão bom sua pele na minha, seu calor misturado ao meu, seu colo, seu cheiro, seu olhar carinhoso e seu jeito protetor... tão bom você na minha vida!
...
Tão bom me sentir necessária...

quinta-feira, março 05, 2009

Pequeno balanço 'sentimental'


1. Minha mãe mora em Goiânia.
2. Meu irmão mais velho mora em Itapeva.
3. Meu irmão mais novo mora em Goiânia.
4. Minha irmã mora em Goiânia.
5. Minha filha mais velha, que passa um tempo comigo, está programando sua partida.
6. Minha filha mais nova mora em Curitiba.
7. Meu filho mora em Curitiba.
8. Meu namorado mora em Salvador.
9. Tenho (verdadeiros) amigos em Foz do Iguaçu.
10. Tenho (verdadeiros) amigos em Curitiba.
11. Tenho (verdadeiros) amigos em Corbélia.
12. Tenho (verdadeiros) amigos em Mar Grande.
13. Tenho (verdadeiros) amigos em Goiânia.
14. Moro em Valença.
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Acho que não bato bem das idéias, afinal.

quarta-feira, março 04, 2009

Agenda da Tribo, ainda


Não gosto de quem tem sempre certeza
de quem não suspende a respiração por um amor
de quem encerra todas as frases com ponto final
de quem não exclama, diz que não ama
de todos aqueles que nunca passaram mal
Não gosto dos que nunca sentiram a chuva em seus rostos
não gosto de quem nunca morreu de rir
nem chorou a noite inteira por alguém
Não gosto dos que não gostam de cachorro
dos que não tem sua música preferida
filme preferido
dos que sempre tanto faz
dos que nunca querem mais
Fernanda Michele Maciel Sarate

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Poema


sinto, meus filhos
se só lhes deixo
palavras ao vento
retalhos (gastos)
de versos inacabados
dívidas de dúvidas
pra que vocês (a) paguem
(cem conflitos)
dividam entre si
(e transmitam aos seus)
a riqueza de espírito
(Valéria Tarelho)
...
Não sei quem é a autora, não tinha ouvido falar dela até este momento, quando me deparo com este poema no Livro da Tribo de 2009, nona página. Gostaria de tê-lo escrito. Como não o fiz, o reproduzo com o devido crédito. Serve de testamento para mim também.
...

domingo, fevereiro 15, 2009

"Mais um ano que se passa, mais um ano sem você..."


"... já não tenho a mesma idade, envelheço na cidade..."
Hoje é um aniversário.
Ao contrário de tantos outros, não há bolo, não há balões, não há docinhos, nem festa, nem alegria. Talvez já exista um pouco de paz. Talvez a dor já não seja tão grande; talvez, por ser companhia constante, já tenha me habituado a ela, talvez. O que sei é que já posso me lembrar sem lágrimas - quase sempre. Salvo poucas vezes em que sou pega de surpresa, ao som de 'fio de cabelo', num momento frágil, e aí não consigo mesmo segurar a onda - é tão forte sua presença, sua voz cantarolando, o som de seus passos no corredor, o seu sorriso ao pegar no pé de alguém que não dá pra segurar - e em silêncio as lágrimas descem.
Penso muito no senhor, paizinho, amiúde. Não, não penso conscientemente nem deliberadamente. Não penso na falta que me faz (apenas sinto) ou em como se foi. Penso muito em sua vida, que foi um aprendizado pra mim. Penso em todas as dúvidas e medos e anseios que o senhor teve, penso nos sonhos que sonhou e não pôde realizar, penso em tudo o que abriu mão por nós, penso em erros tentando acertar, penso na sua fragilidade não exposta, penso em como se sentia cada vez que os problemas batiam, em família, à sua porta.
Uma vez li, em algum lugar, que só conhecemos e valorizamos verdadeiramente nossos pais depois que eles se vão, e acreditava, do alto de minha soberba sabedoria, que já o conhecia e valorizava o suficiente, talvez até mais do que o senhor merecesse. Meu Deus, quem sou eu???? Quem sou eu pra pensar em julgar o que o senhor merecia????? Quem sou eu pra saber o que ia em seu coração cada vez que traçava passos em linha reta e o destino teimava em desviar para um lado, para outro, para trás? Quem sou eu pra saber de seus medos, suas angústias, quem sou eu senão a filha mimada e egoísta que só via seu próprio umbigo, achando tolamente que o mundo girava em torno dele??? Ah, Deus, como era certo o texto que li! A falta, a saudade, a certeza de não poder mais partilhar momentos alegres ou tristes, tudo isto redimensiona nossa visão, nossos conceitos, nossa fé.
Hoje faz um ano que o senhor partiu. E hoje sei que queria ter tido mais tempo pra estar junto, pra conversar, pra colocar no colo, pra pedir colo. Hoje sei, com toda certeza do mundo, que tudo o que vale a pena na vida é o amor, e que é importante estarmos juntos àqueles que amamos, e não perdermos tempo brigando, discutindo. Hoje sei mais que nunca o quanto o amei, meu pai, enquanto estava pleno de alegria entre nós, e o quanto este amor ainda é vivo dentro de mim. E o que me deixa com um pouco de paz no coração é saber que, onde quer que esteja, o senhor sabe disso tanto quanto eu - sabe de meu amor, de minha gratidão, de meu respeito e de minha admiração. Eu só queria ter tido sabedoria pra demonstrar isto enquanto estava ao seu lado - mas isto é algo que não dá pra mudar. E que vai me acompanhar pra sempre. Assim como o meu amor, papai.
A foto aí de cima foi tirada logo depois do natal de 2007, momentos antes do San viajar de volta pra casa. Pouco menos de dois meses de sua partida. O último natal em que estivemos todos juntos - e o senhor já estava tão frágil, papai. Talvez fosse melhor não colocá-la aqui - mas é pra aplacar um pouquinho essa saudade, e essa dor de saber que momentos como este não vão mais acontecer.
Fica em paz, paizinho, onde quer que você esteja, com a certeza de nosso amor e nossa gratidão por ter nos proporcionado a chance de sermos quem somos, e por ter nos permitido ser tão felizes enquanto estava entre nós.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Penso, logo existo.

Não devia ser sonho, logo existo? Em fase de questionamento... será que quarenta e quatro anos é muito tarde pra se descobrir? Crise tardia de identidade? Puxa! Se Lya Luft começou a escrever aos quarenta, se viveu um grande amor depois desta idade, se mudou sua vida a partir de então... Tá, tudo bem. Não sou Lya Luft, bem sei. E ainda bem, porque se fosse, perderia seu exemplo que amo citar! :) Mas como Lucemary, não posso ter essas crises? Esses questionamentos? Questiono-me desde sempre, pelo que me lembro - apesar das certezas todas que carrego comigo, desde sempre também. Lucemary. Lucemary Peres. Lucemary Peres de Assis. Lu. Looper. Coisas bobas, pensamentos bobos, questões bobas. Será? Elocubrando, apenas. Por falar nisto, existe mesmo esta palavra? Não encontro agora o 'pai' pra saber - e tô com preguiça de procurar na net. Foi só pra contar pra minha fiel, atenta e tão semelhante leitora, que faz parte, afinal: medos, dúvidas, questionamentos. Mas a melhor parte é quando a gente "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima"! Ou, como diria um leonino genuíno, quando a gente sacode a juba, arranha a garganta num rugir sensacional, olha em volta e percebe que tudotudotudo vale a pena. Até os medos revelados inadvertidamente - porque no fim, você é soberano, e pronto. Nem que seja de seu próprio mundo - ou de seu infinito particular.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Caminhos, destinos e afins


A gente nasce e bom... não tem muita escolha. Somos cuidados, bem ou mal, por nossos pais, a quem podemos amar ou não, e que traçam nosso caminho até que estejamos aptos a nossas próprias escolhas.
A primeira delas, no meu caso especificamente, foi o vestibular. "O que é isso de relações públicas, filha? Tem doutora antes?". Não, mãe, não tem. Na verdade não tem nem muito futuro se a gente não acredita de verdade. E na verdade essa escolha foi errada, eu queria jornalismo. Optei por RrPp por ser menos concorrido, de escore menor, e por ironia, passei com média suficiente pra jornalismo. Mas aí, pensei, posso depois fazer reaproveitamento e 'voilá': dois cursos! Que nada... no meio do caminho, outro caminho se cruzou ao meu, e juntos trilhamos outros passos que nos levaram a escrever uma grande história e três filhos e depois, nossos caminhos se separaram. E aí também não haviam escolhas, filhos pequenos e uma vida pra levar... não dava pra sonhar. Os filhos cresceram um tanto, e cada um seguiu seu caminho, entoando seu canto ao vento... e aí então, era a hora de outra escolha. E a escolha foi por voltar atrás, pra cuidar das pessoas que haviam cuidado de mim, me dado amor, me possibilitado ser quem sou... até a despedida triste, e a constatação de que, por mais que caminhemos, nossos caminhos sempre parecem incompletos, imperfeitos, inacabados. Então, mais uma vez, escolhas. Sem marido, sem filhos, sem pais, sem ninguém que precise de mim. Podendo escolher de verdade o caminho - de sonhos ou não. Meu Deus, como é difícil!!! Escolho chutar o pau da barraca, jogar tudo pro ar e ir viver na praia, com um ateliê de artesanato, vendendo sanduíche natural e escrevendo poemas... mas esta escolha, a dos sonhos, infelizmente não paga as contas. E estas, rapaz, são tantas!!!!
É isso aí. Uma pessoa, numa encruzilhada, e alguns caminhos. Qual deles escolher? Qual seguir? Será que saberei escolher o que eu quero de verdade? E o que eu quero de verdade? O que me fará feliz? Será que algo me fará feliz?

quarta-feira, janeiro 07, 2009

"Eu prefiro ser..."


"... essa metamorfose ambulante..."
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Quando as pessoas cantam esse refrão da música do Raul, esquecem o restante. Acham que 'metamorfose' aplica-se somente à aparência. Esquecem o 'do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo'...
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E eu não consigo ser assim. Mudo a aparência, mudo os sonhos, mudo as crenças - embora a essência permaneça.
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Hoje estou loira, loiríssima.
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E acredito que, contrariando Jobim, 'é possível ser feliz sozinha'...
Se bem que isto não é uma mudança, né? Já que sempre acreditei nisto...

sábado, dezembro 20, 2008

Perfil


Leonina,
ascendente em peixes.
Dragão no horóscopo chinês.
Adaga no horóscopo cigano.
Estrela no horóscopo druída.
Número de destino: cinco.
Filha de Ogum,
sob proteção de Vehuiah.
Mulher de fases, hoje sou mais eu, mais que sempre, mais que nunca. Minuano cantante em madrugada de inverno, acalanto noturno na noite insone, plena de sonhos a se realizar. Brisa suave na Bahia de Todos os Santos, sobre o mar escuro e o reflexo da lua, que envolve o corpo e faz viajar. Ar rarefeito no planalto central, sob infinitas estrelas que brilham como em nenhum outro lugar. Agitada, suave, parada. Posso ser tudo e posso ser nada. Fluida criatura sem rédea, sem freio, sem arreio... Balzaquiana, autêntica, absoluta. Hoje sou mais eu, mais que sempre, mais que nunca. (Escrito um dia pra o perfil do Orkut, publicado aqui pra não se perder...)

domingo, dezembro 07, 2008

Sobre sonhos e significados.


Não sei se sou uma pessoa mística. Às vezes acho que sim, às vezes tenho dúvidas.
Sou sim, uma pessoa de fé. Acredito em Deus, de uma forma que não sei explicar. Acredito que exista uma 'força estranha', como dizia Roberto Carlos, que me leva não a cantar, mas a viver. E a acreditar, num ciclo sem fim, enfim.
. Estávamos, Paulinha, eu e Tata conversando, na cozinha. Na varanda da frente, mamãe fazia as unhas. Havíamos chegado de viagem há pouco, e depois de conversarmos um pouquinho, ela voltou à manicure para depois se juntar à nós na cozinha - e na cozinha, conversávamos animadas sobre sabe-se lá o quê, amenidades, besteiras, aquelas coisinhas que se diz quando se está bêbada de alegria, e essa era a sensação do momento: estávamos, as três, embriagadas de alegria pelo encontro. Aí ouço, bem clara e nítida, papai dizendo lá de dentro: " - E a mochila da Loira, vocês trouxeram?" " - Está na mochila, Papai." As duas me olham, um tanto surpresas, quando respondo assim, e papai insiste lá de onde está: " - Pega e tira logo da mala, se não vocês vão acabar esquecendo!" " - Ai, papai, o senhor não muda nunca, que coisa! Já vou pegar, não vou esquecer, pode deixar! Eita, Tati, que esse seu pai não muda nunca!!!" Olho para as duas e suas expressões de espanto, medo, surpresa, sei lá o quê, faz de repente a ficha cair: papai não está mais entre nós. Mas a voz que ouvi foi clara, foi real, foi... começo a chorar, e mamãe vem lá de fora, "filha, não fica assim, o que tá acontecendo?", "não sei, mainha, não sei, não consigo esquecer, papai está tão vivo dentro de mim, na minha memória, sei que de alguma forma o atrapalho, mas não consigo, não consigo não lembrar, não sentir sua falta, não pensar que poderia ter sido diferente..." E o choro vem, copiosamente. Não consigo controlar minha lágrimas, os soluços, não consigo não chorar, por mais que mamãe tente me acalmar, me consolar... tenho o rosto molhado, inchado pelo pranto e aí... acordo. Acordo com o rosto molhado, inchado pelo pranto, o travesseiro enchacardo pelas lágrimas e me dou conta de que era um sonho. Um sonho que expressa tão bem como tenho me sentido que provocou lágrimas reais. Aí, quando entro no orkut pra vir aqui postar (caminho natural, pra ver se tem recados novos), o recado de uma amiga de tanto tempo contando que perdeu a mãe em julho, e que é uma dor tão grande, e... Sinto falta de meu pai. Sinto falta do arrastar de seus chinelos pela casa, cantarolando 'Carolina, Carolina...', sinto falta de nossas discussões que ele alimentava meio com alegria, meio com pesar, acho que só pra me ver discordar dele... sinto falta da sua presença pela casa, da sua preocupação com cada filho, sinto tanto tanto sua falta. Sinto falta de meu pai - e ainda não aprendi a conviver com esta falta em seu lugar. Acho que talvez seja o natal chegando. O primeiro natal sem ele. Sim, sei que virão muitos, sei que todo mundo perde alguém que ama, sei que este é o caminho natural, sei que todo mundo parte um dia. Sim, eu sei. Mas ainda estou tentando trabalhar isto dentro de mim, estou tentando aprender. Sei que um dia vou conseguir. Por acreditar em Deus, acredito que meu pai está bem, onde quer que esteja. . E por acreditar em Deus, sei que vou conseguir.

quarta-feira, novembro 19, 2008

Um dia comum

"Um dia feliz às vezes é muito raro..." (Jota Quest) Por vezes, ouvindo esta música, imaginamos que, prá um dia ser feliz é necessário algo diferente, inesperado, surpreendente - e nem sempre é assim. Dias comuns são os mais felizes - como hoje. Dia de sol e preguiça. Dia de me deixar ficar, sem pressa, sem tempo, sem compromisso, sem hora pra levantar, pra comer, sem hora marcada pra nada - dia como há muito não havia. Dia de partilhar a paixão pela criação, e melhor, a companhia de Cloé. Um dia feliz.

sábado, novembro 15, 2008

Pensando no ônibus

"- Oi, amor da minha vida!" " - Mãe? Como você sabia que era eu?" " - Uai, eu não sabia. Mas vi o DDD 45, e daí só duas pessoas poderiam me ligar, e os dois são amores da minha vida..." " - É, mas eu tô ligando do celular do pai... e se fosse ele?" Pausa para pensar. Penso que ele já foi o amor da minha vida um dia, mas não poderia dar esta resposta, até porque o amor da minha vida de hoje está ao meu lado e é ciumento pra caramba, ia rolar estresse e isto é a última coisa que eu quero numa noite de sexta feira... não lembro o que respondi. Só me lembro de processar a informação: "mãe, hoje é a formatura do Matheus." A ligação horrível, peço pra ela ligar mais tarde, quando ele pudesse falar comigo, as lágrimas rolando já, é formatura do meu filho e eu não estou com ele. Mais uma vez. Eu jurava que a formatura dele era hoje, sábado. Mas jurava em falso, né? Não que isso amenizasse o fato de estar distante nesta data, mas pretendia ligar pra ele dando os parabéns (sim, orgulhosíssima de suas médias anuais, apesar de conversar muito...), lembrando o quanto o amo, justificando (mais uma vez) o fato de não poder estar presente na sua formatura de segundo grau... e não fiz nada disso. Não falei com ele antes, não falei depois - não me ligaram. E não tinha créditos pra ligar. E não tinha o número da casa pra ligar com cartão (sim, ainda não refiz minha agenda depois que o ladrão levou o telefone dele), e chorei e chorei e chorei. Mas não chorei tudo o que meu coração pedia. Hoje acordei inchada, não sei de tanto chorar ou de represar todo o choro ainda por sair. Acordei mal humorada, acordei irritada, acordei de um jeito que seria melhor nem acordar. Ontem, voltando do shopping pra casa, olhava os prédios todos e suas luzes acesas dos apartamentos, e imaginava a vida em cada um deles, e os dramas pessoais de cada morador, e quantos estariam se sentindo como eu... e pensei este texto que queria escrever aqui, mas não rascunhei... não sei porque cargas d'agua não estava com minha cadernetinha, e se pelo menos não esboço o texto, depois ele não vem mais. Não como imaginei, não como senti, não como desejei. E agora, escrevo apenas pra dizer, Matheus, que apesar de não ter ligado, de ter sido uma mãe relapsa, amo você. Tanto, tanto, tanto. Queria ser a mãe perfeita, a melhor, a presente em todas as horas, seu colo, porto seguro, sua amiga, confidente, cúmplice. E não sou. Desculpe por isso, meu filho. Queria ter estado com você ontem, vê-lo receber a homenagem justa por vencer mais esta etapa em sua vida, chorar de emoção (alguma dúvida de que me desmancharia?), lhe encher de beijos, de abraços, de beijos, de abraços, de dengos, deixá-lo desconcertado como fica às vezes com minhas demonstrações públicas e efusivas de amor e carinho... queria ter partilhado este momento especial com você, meu filho. Queria muito. Desculpe, mais uma vez.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Então, férias...


Engraçado.
Meses antes das férias eu planejava o que fazer: vou pro sul, pra formatura de Matheus, ver os amigos que não vejo há uns cinco anos; na volta passo em Goiânia, ver mamãe e a galera; vou marcar todos os médicos e dentista que preciso; vou comprar material de scrap e fazer um moooooonte de montagens; vou pra ilha, ficar de papo pro ar, morgar, pra praia pegar uma cor, ficar dias inteiros na rede ouvindo o vento nos coqueiros, vou prum boteco com Cloeh ficar vendo a vida passar entre um copo de cerveja e um bolinho de bacalhau; vou conhecer Morro de Sao Paulo e Pancada Grande; vou... nada. Vou pegar a grana das férias e pagar contas, cobrir o cheque especial, liquidar a fatura do cartão, e pronto. Aproveitar e fazer faxina nos meus papéis, nas coisas de artesanato, preparar o natal... coisinhas que não precisam de grana. E, se conheço bem meu irmão, vou poder ir à Gyn, sim, mesmo sem grana. Acho que adoro quando ele bebe e sente saudade de mim!!!! :)
"- Que dia você vem pra cá?"
"- Ih, maninho, não vou não. Paguei cartão, cheque especial, tô sem grana."
"- Êêêê, você, viu?" "- Sério mesmo. Tô ferrada de grana..."
"- Viu? Você vem. Eu pago uma passagem..."
:)
Este é meu irmãozinho. E não é irmãozinho porque disse isso não - nem porque é pequenininho, quem o conhece sabe disso. É irmãozinho só porque é o mais novo, por que fora isso, é um irmãozão. É ciumento, é cuidadoso, é família, é amoroso. É porto seguro pra quem ele ama - tudo bem, lá do seu jeito meio truculento, meio impositivo, meio mandão... mas o que importa? O que importa é que ele sabe que amor é tudo. E família é amor. E ele sabe tudo de amor. Tanto que tá bravo comigo, por que meus filhos não vão pra Goiás neste fim de ano, só porque estou morando longe, e falta tempo($$$) pra eles virem aqui e irem pra lá.
Que Deus não permita que ele mude. Ele, agora, é o elemento agregador. E é tão, mas tão, mas tão bom saber que ele tá lá, e que posso contar com ele pra me ouvir, pra me amparar, pra me apoiar - mesmo que às vezes eu tenha que puxar sua orelha, né não? ;)
...
Este post era pra falar das férias, que estão aí desde segunda (e hoje é quinta!) e não fiz nada ainda. No fim, foi muito mais legal. Como sempre, tudo o que não é planejado acaba sendo melhor.
:)
Férias, então.

domingo, outubro 26, 2008

Pausa para organizar mudanças


Em dia de decisão tomada e algumas mudanças... e não, não são mudanças radicais. São ajustes para gerir meu dia a dia e os projetos que me propus a tocar.
Como ainda estou me organizando, revendo como vou fazer a partir de agora que só terei este blog para escrever, fora o Pipoca e Coca Cola - que partilho com as meninas; e o Mosaico, esta imagem que encontrei na net é o que melhor revela como estão meus sentimentos neste momento.
:)
Postando para constar.

domingo, outubro 12, 2008

Sobre amar e não amar


Pergunto-me porque amar, às vezes, é complicado.
Devia ser simples: eu amo, e pronto. E ponto. Mas não é. Nem sempre é. Porque a dificuldade em aceitar o outro como ele é? Porque medos e inseguranças sobre o sentimento do outro? O que importa não é o que sinto? Não é isso o que me faz feliz? Claro que se amo e sou amada (e tanto o objeto de meu amor quanto quem me ama são a mesma pessoa) é muito melhor. Claro que a certeza de ser amado por quem se ama traz paz, traz aconchego pra alma da gente. E porque esta certeza é tão difícil? Porque é preciso ter o tempo todo demonstrações de amor, de necessidade, de dependência? O que me fortalece, quando amo, é a força do outro. A sua integridade, independência, felicidade. Não preciso que ele dependa de mim pra nada - preciso sim, que ele queira estar comigo. E que isto seja uma opção, não uma necessidade incontrolável - porque a certeza de que meu amor está comigo porque quer assim é muito melhor do que a constatação de que ele está comigo porque depende de mim, do meu amor, da minha presença. O amor, prá mim, não gera dependência. É lindo, sim, "tu te tornas responsável pelo que cativas". Mas vejo esta responsabilidade como algo espontâneo e leve, não obrigatório e pesado. Se estou contigo, amor, é porque quero. É porque a cada amanhecer abro meus olhos e penso que escolhi estar contigo mais este dia que nasce. É porque trago no coração a certeza de que estar com você me completa e faz mais feliz. Se estou contigo, amor, é porque escolhi. E é isto que traz valor ao nosso amor: escolhemos um ao outro. E em tempo algum isto pode se tornar um jugo, porque aí perde o valor, e perde-se o amor. São quatro da manhã e estou aqui, insone, a filosofar sobre o amor - tanto pra falar, mas os sentimentos e idéias são inúmeros, e as palavras não fluem com a rapidez dos pensamentos... então, melhor apagar a luz e olhar o sono chegar. Bem devagar. Pensando no amor - e no meu amor.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Permanente, apenas a inconstância.



Sempre a mesma, renovo-me a cada dia.
Se tudo é mutável, quanto mais crenças, pensamentos, realidades, desejos, evanescentes e intangíveis?
Quanto mais eu?
Se hoje sou Penélope, amanhã posso ser Lilith. Outro dia Helena, Joana, Isabel, Evita, Elisa, Maitê, Lya; posso ser Maria, também Coco, Marilyn, Luz Del Fuego, Jaqueline, posso ser tantas e cada uma, e nenhuma, e por fim eu mesma.
Não me julgue, não me pressuponha, não me classifique.
Sou ímpar, sou única, exemplar de colecionador, primeira edição de livro raro, jóia preciosa talhada por caprichoso ourives, sou o que me proponho, o que me valido, o que me defino.
Não me gereralize e não me banalize.
Sou leonina mansa, pisciana feroz - porque hão de existir paradigmas se não para serem rompidos?
Porque limites se não para ultrapassá-los? E ir além?
Não me julgue, não me pressuponha, não me classifique

segunda-feira, outubro 06, 2008

Falando em amor...



"... vou falar de mim. Como filha e como mãe. Um pouquinho só porque sei que não conseguiria dizer tudo o que talvez seja necessário – até porque começo e meus pensamentos por vezes se dispersam. A primeira lembrança que tenho na vida sobre “o que eu quero ser quando crescer?” é: “mãe”. Depois veio “jornalista”. Mas a primeira foi “mãe”. O amor que tive por meus irmãos – os três – foi incondicional. Sandro, talvez pela pouca diferença de idade entre nós, era como um bibelô. A vida toda, quando éramos pequenos, eu o defendia de tudo e de todos. E não me lembro de uma única vez, em todas as brigas de irmãos que tivemos, que eu houvesse levantado a mão pra ele. Quando Wan chegou, eu tinha oito anos – e pra mim, Deus tinha mandado aquele menininho lindo e inteligente pra mim – era um presente de Deus pra mim. Da mesma forma, eu o defendia também – mas ele, de alguma maneira, era bem mais forte que o San. Sem contar que era o xodó de toda a família. Aí, aos meus dezoito anos, veio a Tati – e também foi como uma filha. Melhor, na verdade, pois eu não tinha obrigação de educar, só precisava amar e mimar. Mas claro, não foi só assim: quantas vezes conversamos, ela pequenininha e eu explicando porque não podia isso, porque não podia aquilo... A vida toda minha relação com meus irmãos foi de amor total e incondicional – mesmo quando, depois de crescidos, tínhamos divergências de opiniões ou entramos em atrito – porque esse amor gerou uma amizade que não tem preço. E que dá a certeza de meu lugar no mundo. E se, lá atrás, quando eu era pequenininha, tudo o que eu queria era ser mãe, com certeza é porque “mãe”, pra mim, era a melhor coisa do mundo. E pra pensar assim, eu tinha que ter a melhor mãe do mundo. E eu tive. Apesar de toda a divergência de pontos de vista que temos hoje, mamãe e eu, ela foi a melhor mãe do mundo – e eu não seria, nunca, nem a metade do que ela foi nas circunstâncias em que os filhos chegaram à sua vida. Com vinte anos mamãe tinha dois filhos e um marido irresponsável, que com o tempo se tornou alcoólatra. Veja bem, não estou aqui criticando meu pai, até porque acredito que ele foi o melhor pai do mundo – de verdade. Quando se conscientizou da importância do papel de pai, quando conseguiu se libertar do vício. E foi o melhor avô que meus filhos poderiam ter tido – sempre presente, brincando, ajudando, brigando, oferecendo colo. Não estou, de forma alguma, desmerecendo papai. Só estou contando que, por muito tempo, foi muito difícil para mamãe: casou nova; sem terminar sequer o segundo grau; porque já vinha de uma história familiar complicada (e apesar de tudo, você pode ver como ela e seus irmãos são unidos e amigos); sem profissão definida; com filhos pequenos e sem o apoio do marido. Sei que eu não teria sido metade da mãe que ela foi. Poderia contar pra você histórias e histórias sem fim de como ela fez empadas de batata e foram os salgadinhos mais deliciosos na festa da escola; de como ela saía comigo e meus irmãos pegando dois ônibus para passarmos um dia no clube; de como ela cuidou por dois anos de três filhos pequenos sendo que um, nesse período, passou por várias cirurgias e não podia nem ir ao banheiro sozinho; de como ela reformava, lavava e passava, deixando como novas as roupas usadas que ganhávamos; de como ela encheu de magia cada dia das nossas vidas com suas histórias e riso fácil; tantas histórias eu poderia contar! Mas não vem ao caso: eu só queria dizer que, se eu desejava mais que tudo na vida ser mãe, é porque eu tinha motivos mais do que suficientes pra achar que ser mãe era a melhor coisa do mundo. E eu não sabia que podia haver no mundo amor maior do que o que eu sentia por meus pais e meus irmãos – até o dia 25 de dezembro de 1985. A partir desse dia, descobri que ser mãe não é só a melhor coisa do mundo: é também a pior. Os piores medos, as piores dúvidas, os maiores anseios. E se meu filho não for ‘perfeito’? E se eu não conseguir educá-lo? E se ele ficar doente? E se ele não puder andar? E se ele não aprender a falar? E se eu não puder mandá-lo pra uma boa escola? E se ele não for inteligente? E se ele não fizer amigos? E se os amigos zombarem dele? E se algum maluco machucá-lo? E se ele não tiver namorado(a)? E se ele gostar do mesmo sexo – sim, e se ele for gay? E se ele usar drogas? E se ele resolver roubar? E se ele se meter em brigas? E se ele não entrar na faculdade? E se ele não encontrar ninguém decente pra casar? E se ele não tiver filhos? E se ele tiver filhos e estiver longe de mim? E se seu(sua) companheiro(a) não gostar de mim? E se? E se? E se? Aí, num período da minha vida, me vi sozinha com três filhos. Como se diz no Rio Grande do Sul, “mais perdida do que cuzco em procissão”. E se eu já me preocupava com eles, a partir daí essa preocupação dobrou, triplicou, sei lá. A sorte é que éramos amigos – sempre acreditei que deve haver amizade entre pais e filhos. Claro, sem esquecer o respeito e o laço mãe-filhos, ou pai-filhos. E a partir de então, essa amizade se fortaleceu. Minha amizade com Paula, Maya e Matheus sempre foi muito transparente – por mais que eu tenha errado. Sempre decidimos tudo juntos, e partilhei com eles minhas incertezas, meus medos, minhas dúvidas – por mais que isso fosse errado. E sempre tentei decidir tudo em nossa vida, principalmente quando morávamos todos juntos, de forma “democrática” e justa para todos – por mais que, muitas vezes, tenha que ter sido assertiva e impositiva. E essa amizade, essa relação, é baseada na confiança e na liberdade. Às vezes sou questionada: será que com o pai deles há essa atitude, há essa cobrança? Será que com o pai eles fazem isso, fazem aquilo? De verdade? Não me interessa. Não mesmo. Importa pra mim a relação que eles têm COMIGO – e pronto. Nunca, em momento algum da minha vida, pautei meus relacionamentos com base na comparação. E não quero, nunca, que o relacionamento dos meus filhos comigo seja igual ao comportamento deles com o pai. O nosso relacionamento – eu, Paula, Maya e Matheus – nós construímos ao longo tempo, com nossas atitudes – fossem elas altruístas, egoístas, estúpidas, como quer que fossem. E é único: com Paula, com Maya, com Matheus."
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Trecho de uma carta não enviada falando sobre meus sentimentos.
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