Este sábado começou todo errado, apesar das expectativas de ser especial.
Acordei pouco depois das seis, numa marisia sem fim. Arrumei a mochila pra ir pra Salvador, e cheguei na rodoviária poucos minutos depois de o expresso de 07:10 ter partido - então, peguei uma moto para ir até o teminal do Jacaré (o mocinho do balcão de passagens garantiu que eu conseguiria!), mas não deu. E o pior: chegando lá, descubro que tinha esquecido o celular em casa. Na mesma garupa, volto em casa, pego o celular e caminho novamente pra rodoviária, a tempo de pegar o ônibus (pingapinga) de 07:50, que chega ao Bom Despacho às 09:40 - os portões para pegar o Ferry das 09:45 ainda estavam abertos, mas não vendiam mais bilhetes, o próximo só 11:15. Não estava disposta a esperar uma hora e meia, pego uma moto e vou pro terminal das lanchas em Mar Grande. Merda!!!! Maré baixa. A próxima lancha só sairia 12:30. Eu mereço, eu mereço. Na mesma garupa (isto tá ficando chato), volto pro Bom Despacho. Em frente ao Bom Preço, resolvo descer pra comprar um lanche, já que o próximo ferry é só às 11:15. Bom. Com toda calma compro barras de cereais, iogurte e um livro de Agatha Cristhie (O Mistério da Arca Espanhola e Outras Histórias, que ainda não li) e vou caminhando sob o sol até o terminal do ferry. Quando chego no guichê a mesma menina que me atendeu antes, afirmando que o próximo ferry seria às 11:15 sorri e pergunta: "não quis ir no extra das 10:10???". Controlo minha vontade de socá-la através do vidro, e respondo meio blasé: "não, fui passear por aí, aproveitar esta manhã de preguiça." Engulo minha vontade de dizer um monte de besteiras, de ser grosseira, de ser irônica e vou me sentar lendo meu livro novo, o que é algo de bom nesta manhã torta.
Quando chego à casa de Ramon, ele tá limpando a bateria sob o sol, que já não está mais aprazível, e sim escaldante - me esquivo de ficar fazendo companhia, e subo pra um banho que lava os cabelos, o corpo, a alma. Passou. O dia vai melhorar, eu sei. Afinal, vou ao show do Roupa Nova, meu melhor presente de aniversário. A M O Roupa Nova. E de bônus, Zezé de Camargo e Luciano. O dia vai, sim, ser Shump. Não posso desacreditar, mas... já prontos, ficamos quase uma hora DE PÉ no ponto de ônibus que chega cheio de gente, afinal, além do show no Wet'n, pra onde vamos, tem algum outro grande evento musical no Parque de Exposições, no mesmo caminho. Então, continuamos de pé. Detalhe: o show também é de pé. Já estou irritada antes mesmo de chegar, mas conto até dez, e de novo, e Ramon é um poço de paciência comigo.
Ao chegar descubro que a patrocinadora oficial do evento é a Schin - não vou tomar cerveja, o que também me irrita um pouco mais. A banda que vai fazer a abertura do show é Seu Maxixe, pelo que entendi - uma banda 'sertaneja universitária' muito, muito boa. Não a conhecia, mas gostei muito, os meninos tem suingue, são animados, tem um bom repertório e segundo Ramon, que entende da coisa, tocam bem - apesar de o vocalista não ter molejo nenhum pra dançar! Gosto, me animo e até danço com eles - quando do nada, começam com antigos sucessos. Tocam "Fio de Cabelo". Algumas coisas, pra mim, são inconscientes e incontroláveis. Estava ouvindo a música encostada em Ramon, e só percebi que estava chorando quando as lágrimas caíram no meu braço. Que coisa idiota, isso, não é? Não, não é. É complicado, é difícil, é constrangedor às vezes, mas não é idiota. Esta é uma das músicas que mais fortemente lembram meu pai, e que ainda não consegui ouvir sem chorar. Disfarço, seco as lágrimas, mas elas voltam - e meu bem percebe, ele sabe como me sinto, e me abraça forte, o que aumenta a vontade de chorar - mas consigo me controlar, e penso comigo mesma: "tomara que Roupa Nova toque antes de Zezé.". Pressinto que terei dificuldades.
E assim é, começa "O" Show. Roupa Nova é tudotudotudo de bom, os caras são o máximo no palco, e tocam muuuuuuuuuuuuuito (opinião de quem entende!) e eu me acabo dançando e me divirto muito e fico muito feliz por poder estar ali. As brigas, por tentativa de furto, são um capítulo à parte - não sei quantas houve ao total, mas só do nosso lado foram três (eu mereço!).
Termina o show, e ele voltam ao palco a pedidos, com uma canja de grandes sucessos de rock que empolgam a galera, e nossa! Foi muito bom. Quero mais.
Enquanto esperamos Zezé e Luciano (e só vão chegar perto de duas da manhã, estão vindo do Rio, estavam se apresentando ao vivo no Criança Esperança) vamos lanchar, uma pizza de cone bem boazinha. O show começa e ficamos um pouco mais longe do palco - mas quando eles começam a cantar não consigo pensar em nada a não ser que Wan adoraria estar ali, e eu adoraria que ele estivesse, e putz, que meleca, não trouxe o celular por medo de assalto, e
P R E C I S O falar com ele, ligar no outro dia não ia fazer o mesmo efeito... então, com minha grandecíssima cara de pau olho pra moça que tá do meu lado e tem uma bolsinha à tiracolo... "moça, por favor... perdi meu celular (Deus há de perdoar essa mentirinha!)... e meu irmão, que mora em Goiânia, é fã de Zezé e Luciano, e eu precisava MUUUUITO ligar pra ele, é a cobrar, será..." nem preciso continuar a ladainha, ela é um doce, tira o telefone e me entrega: "após o sinal, diga seu nome e a cidade de onde está falando: sua irmã, de Salvador, direto do show de Zezé de Camargo e Luciano, pensando em você cara!!!". risos... acordo meu irmão, que é tudo de bom na vida, e entende que eu precisava falar com ele, afinal è Zezé e Luciano no palco, e isto é a cara da nossa família, dos churrascos, do churrasqueiro, ele entende que eu o queria aqui, que sinto saudade, e conversa na boa (bom... isso não é novidade entre nós, né? Só que geralmente ligamos quando estamos dois ou mais irmãos reunidos, bebendo todas e comendo churrasco, e um pobre incauto não pôde se reunir aos outros... rssss).
Agora sim - posso curtir o show, que começou com músicas atuais da dupla, que logo percebeu que na terra do axé não são conhecidas, e começam a resgatar sucessos antigos de seu repertório- o que é péssimo. Mais uma vez me descubro chorando (eita mico!)... e percebo algumas pessoas a me olhar curiosas, e sei, no fundo do meu coração, que não vou conseguir ficar até o fim sem me deixar invadir pela melancolia... melhor ir embora, já valeu a pena, foi tudo de bom. E o dia que começou torto pra caramba acabou bem. Certinho, feliz, aconchegada no abraço do meu amor.


Segundo dia de atestado médico, gripe (não suína), em casa. Hoje dormi menos do que ontem, não sei se já me acostumei ao remédio, não sei se estou menos debilitada. Fico ON no MSN, coisa rara, pra atender a primogênita que solicita uma 'conversa séria' (penso que vou levar uma baita bronca!). E vem falar comigo um querido, muito querido amigo, ex-cunhado, que traz no seu perfil os dizeres acima - quem sabe talvez um sinal. Conversamos muito, não o suficiente pra matar a saudade, mas o bastante pra nos sentirmos recarregados neste sentimento de amizade que nos une. E aí, do nada, ele me pergunta: "Pois é, minha cara e elegante amiga, e seus sonhos, quais são? Metas, planos..." Fico sem resposta, e isto me assusta. Muito, aliás. Paro um pouquinho e penso no que aconteceu agora, neste exato momento em que ele me pergunta e não tenho respostas: como me sinto? Reconheço-me? Sou eu esta pessoa que não sabe falar sobre seus próprios sonhos, metas, planos? Tá, tudo bem. Sei que nunca fui de ter sonhos grandiosos, metódicos ou impossíveis - sonhei ser mãe, o primeiro sonho que me lembro - e realizei-me. Sonhei contar histórias e, mesmo de maneira não tradicional, realizo-me. Sonhei morar na praia, junto ao mar. Sonhei ter amigos - na acepção exata da palavra, mesmo que não fossem numerosos - e me realizei. Sonhei ver meus filhos crescerem, tornarem-se pessoas especiais, sermos amigos. E me realizei. E agora? Cadê meus sonhos? Como posso buscar algo se não sei o que buscar???? Sei que meus sonhos estão aqui, em algum lugar. E vou procurá-los pensando no que meu amigo disse, antes de se despedir: "E não esqueça de que nós é quem somos donos da nossa história - quem a escreve somos nós." Se gosto de contar histórias, não posso me esquecer de que a principal é a minha. É dela, afinal, que partem todas as outras - imaginárias ou não, que me proponho a contar. Então, com licença, que eu vou ali vasculhar sob os escombros do passado, pra ver se encontro meus sonhos escondidos, observando atentos - com medo do futuro. E vou resgatá-los, com toda sua importância na minha vida. 









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