Momentos. Reminiscências. Vivências. Sentimentos. Lugares. Pessoas. Músicas. Poesias. Livros.

quarta-feira, agosto 05, 2009

Ly, queridamiga, companheira e quase irmã,

Estou sentada à cozinha esperando que a máquina de lavar esvazie, para que eu possa abrir a torneira novamente (sim, ela tem problemas, é temperamental - se fica aberta a torneira, alaga a área de serviço). À minha frente meia caneca de café, duas revistas de pintura em tela e, apoiada no galão de água, uma tela em branco me olha. Permaneço contemplando-a, a decidir o que, afinal pintarei ali. Enquanto isso, meus pensamentos fogem em uma de suas viagens constantes, sem aviso nem sinal, param num desenho feito por você há anos - um bichinho charmoso com as mãos atrás do corpo, pelo qual me apaixonei incontinenti. E do personagem, claro, é um pulo pra você. E me lembro que, em menos de dois meses você completará 45 anos (tudo bem, não me esqueço que, inevitavelmente, chegarei lá primeiro!) e penso que poderia, de algum modo, enviar-lhe um presente que diga do meu amor e da minha amizade. E penso em talvez customizar uma camiseta pintando o Lully e colocando fitas, botões, sei lá - e mandar, via correio, pra você. Fatalmente me questiono se você gostaria, se usaria, como se veste hoje, que cores prefere neste momento da sua vida, que músicas embalam seus sonhos (sim, mesmo aos quarenta sonhamos, não?), o que faz nas horas de lazer, se continua desenhando (minha inveja absoluta de você - inveja boa, que fique claro!!!), se fala alemão, russo ou mandarim, se gosta de sentar-se só, com o pés sob o corpo e uma xícara de chá à frente e viajar, como eu, por lugares e tempos insondáveis, se plantou uma árvore, se escreveu um livro, se sente falta de filhos...
... e me dou conta de que hoje, afinal, vivemos mais tempo longe uma da outra do que o que passamos juntas, e percebo enfim a enormidade do sentimento que me une à você, e me questiono se um dia ainda nos encontraremos e sentaremos num boteco num fim de tarde tomando uma e olhando a vida passar... (re)descobrindo aos poucos a beleza da amizade que hoje é só um acalanto pro coração... falando de amores, de tristezas, de sonhos (realizados ou não), falando besteira ou mesmo partilhando o silêncio... quiçá um dia possamos.
A máquina parou, e já são 07:45 de uma manhã ensolarada em Valença, numa quarta feira, 22 de julho do ano da graça de Nosso Senhor de 2009 - e infelizmente ainda preciso me arrumar e ir pro trabalho porque não arrumei um marido rico, não ganhei na mega sena...
Mas pensando na distância e no tempo que nos separam, preparo aqui uma pequena lista de coisas que gosto e não gosto... pra que você possa ter uma idéia de como o tempo passou pra mim. Devolva-me a sua lista, ok? Pra que eu saiba também como o tempo passou pra você...
Do que eu gosto?
- de dias de sol (lembra quando a gente largateava no pátio da reitoria?)
- da feira de artesanato do Largo da Ordem em domingos de sol
- de almoçar no Bar do Alemão em domingos de sol em Curitiba
- de artesanato, de pintura, de reciclagem
- de andar nua pela casa
- de viajar
- de plantas pela casa
- de plantas no prato (amo salada!)
- do mar
- de ler
- de escrever
- de bom humor
- de deitar na rede na casa de Cloé olhando o mar e ouvindo o vento nos coqueiros
- de sentar no Boteco do Serginho com o Wan tomando Original e comendo costelinha de porco
- da família reunida
- de boteco com meus irmãos
- de quando eles ligam, bêbados, só pra passar vontade porque eu não tô junto
- de MPB
- de churrasco do Wan (com direito à trilha sonora sertaneja, claro!)
- de cozinhar
- de cantar alto junto com o som em manhãs de faxina da casa
- de jogar Imagem e Ação com meus filhos
- de jogar truco com meus filhos
- de jogar pôquer com meus filhos
- de qualquer coisa com meus filhos - gosto, amo estar com eles.
- de fotografia - fotografar, não ser fotografada
- de scrapbook
- de rever amigos
Do que eu não gosto?
- de mentira
- de pagode (tá, tudo bem, até danço... quando bebi umas...)
- de funk
- de frio
- de coentro
- de dormir com luz acesa
- de Salvador em dias de chuva
- de preconceito idiota (e sim, acredito que todo preconceito é idiota)
- de passar roupa
- de pessoas indecisas
- de pessoas que se acham
- de arrumar a cozinha após o almoço
- de sentir medo
- que me digam como agir
- de me sentir perdida
- de coração de galinha (nem fígado, nem moela, nenhum tipo de vísceras - e isso inclui sarapatel, fatada, xinxins e afins)
Posso pensar em muitas outras coisas pra colocar nesta lista... mas ela se tornaria ainda maior, e mais chata, e... melhor deixar pra quando estivermos juntas, em Barcelona ou Salvador, redescobrirmos...
Beijabraço grandenorme da amiga (de sempre),
Lu.

"E seus sonhos, quais são?"

"Liberdade! Palavra que o sonho alimenta, que não há quem explique e ninguém que entenda..."(Cecilia Meireles) Segundo dia de atestado médico, gripe (não suína), em casa. Hoje dormi menos do que ontem, não sei se já me acostumei ao remédio, não sei se estou menos debilitada. Fico ON no MSN, coisa rara, pra atender a primogênita que solicita uma 'conversa séria' (penso que vou levar uma baita bronca!). E vem falar comigo um querido, muito querido amigo, ex-cunhado, que traz no seu perfil os dizeres acima - quem sabe talvez um sinal. Conversamos muito, não o suficiente pra matar a saudade, mas o bastante pra nos sentirmos recarregados neste sentimento de amizade que nos une. E aí, do nada, ele me pergunta: "Pois é, minha cara e elegante amiga, e seus sonhos, quais são? Metas, planos..." Fico sem resposta, e isto me assusta. Muito, aliás. Paro um pouquinho e penso no que aconteceu agora, neste exato momento em que ele me pergunta e não tenho respostas: como me sinto? Reconheço-me? Sou eu esta pessoa que não sabe falar sobre seus próprios sonhos, metas, planos? Tá, tudo bem. Sei que nunca fui de ter sonhos grandiosos, metódicos ou impossíveis - sonhei ser mãe, o primeiro sonho que me lembro - e realizei-me. Sonhei contar histórias e, mesmo de maneira não tradicional, realizo-me. Sonhei morar na praia, junto ao mar. Sonhei ter amigos - na acepção exata da palavra, mesmo que não fossem numerosos - e me realizei. Sonhei ver meus filhos crescerem, tornarem-se pessoas especiais, sermos amigos. E me realizei. E agora? Cadê meus sonhos? Como posso buscar algo se não sei o que buscar???? Sei que meus sonhos estão aqui, em algum lugar. E vou procurá-los pensando no que meu amigo disse, antes de se despedir: "E não esqueça de que nós é quem somos donos da nossa história - quem a escreve somos nós." Se gosto de contar histórias, não posso me esquecer de que a principal é a minha. É dela, afinal, que partem todas as outras - imaginárias ou não, que me proponho a contar. Então, com licença, que eu vou ali vasculhar sob os escombros do passado, pra ver se encontro meus sonhos escondidos, observando atentos - com medo do futuro. E vou resgatá-los, com toda sua importância na minha vida.

quinta-feira, julho 09, 2009

Pensando bem...

Conheci a Bahia em 1996, num destes pacotes prontos: uma semana de praia, mar e tempo cinzento – março, época de chuva em Porto Seguro – e mesmo sem sol, me apaixonei. O espaço, o mar aberto, a praia limpa, a falta de turistas propiciou um encontro transcendental, altos papos íntimos “de migo para comigo”. Voltei renovada para a correria do dia a dia em Foz, trabalho, calor, muita gente, mas... “ê, Bahia-ia, Bahia que não me sai do pensamento, ai”... em 2003 surgiu a oportunidade de transferência para a ilha de Itaparica, “lugar paradisíaco a 40 minutos de Salvador”, como dizia o anúncio que me seduziu. E como andava facinha, facinha, fui: eu, a filha de 16 anos, o computador, o cavalete de pintura e dezesseis caixas de mudança. Ficaram a filha mais velha, começando a faculdade noutra cidade; o caçula, iniciando a experiência de morar com o pai, aos 12 anos de idade e amigos raros, dos quais trago saudade imensa. E na Bahia, a de morar, não a de férias, alguns choques – uns básicos, alguns gritantes, uns sutis, outros hilários, alguns difíceis de lidar. E a permanente questão: porque insisto? Outro dia, briga grande com uma amiga: “porque esse pessoal do sul é tudo metido a besta, pensa que é europeu!”. Ai, ai. Ai, ai. Que culpa tenho eu se é baixa sua auto estima? O que ela, que nunca saiu da Bahia, pode falar do “povo do sul”??? (Que aqui na Bahia é todo o território nacional do Espírito Santo pra baixo...). Não vou entrar no mérito da questão, de quem está certo ou errado – até porque nem sempre há certos e errados, não é? Mas ontem um amigo a quem admiro muito começa com esse papo de “o povo do sul se acha”, “o povo do sul isto”, “o povo do sul aquilo”... ele, que já me confidenciou inúmeras vezes se envergonhar da educação dos locais, ele que vive suspirando por morar no sul (Curitiba é sua paixão), pra me molestar começa com esse papo besta, e a perguntar sobre os grandes expoentes da cultura nacional, quem são os grandes escritores, os grandes músicos, e começa a citar os baianos e acha que tudo o que é bom só vem daqui (um dia ainda paro pra fazer uma lista e esfregar no nariz de um ou outro metido a besta que me encher a paciência). Me pego pensando nas diferenças – até que ponto são ruins, até que ponto são boas. E no que me faz permanecer. O amor? Pode ser o amor – eterno enquanto dure, como dizia o poetinha (e está durando), e me faça feliz feito essa vida não faz (olha Leminski aqui! E está fazendo.). O mar? “Quando vi o mar a primeira vez...”. A inconstância do meu pensamento, do meu coração? E porque, afinal, saber? Permaneço, e pronto. Apesar da falta. Da saudade dos filhos, da mãe, dos amigos. De hortaliças frescas, de educação, sei lá. Sei que permaneço, incompleta e feliz. Ou completa e infeliz. Mas por opção. Apesar.

terça-feira, junho 16, 2009

A eterna estrangeira

"Quando me perguntam por que quis ser jornalista, sempre respondo que me fascina contar histórias. Por que não foi ser escritora, então? Falta-me talento."
... Quando eu tinha aí uns nove anos de idade já sabia o que queria da vida: ser mãe. E jornalista. Porque jornalista, uma menina de classe média baixa dos anos setenta? Não me pergunte - não saberia responder. Neta mais velha de uma grande família alegre e bagunceira, mas sem nenhuma história de 'leitores' na bagagem - a não ser meu amado tio Dner, que morreu exatamente um dia após meu aniversário de seis anos - quando seu filho mais novo também havia completado um ano - e talvez isso explique o amor tão forte que sinto por este primo hoje homem feito, de quase dois metros de altura e espírito bonachão, mas na época um menininho lindo de cabelos dourados. Mas isto é outra história. Uma das lembranças mais queridas que tenho é da biblioteca de meu tio - professor universitário, único formado de uma leva de seis irmãos 'Deus' - mas isto também é outra história. A biblioteca era um lugar mágico, com paredes cobertas de armários cheios de livros... lembro que todos os dias eu queria visitar minha tia, e chegando lá fugia, assim que possível, para a biblioteca do tio, onde me perdia lendo coleções e coleções de livros infantis que ele havia comprado para seus filhos, que não sabiam o valor incalculável daquele tesouro que fazia meus olhos brilharem como se, cada vez que me encontrava ali, fosse noite de natal... lembro-me de me esconder sob a escrivaninha na biblioteca por vezes incontáveis para poder ler em paz, sem ninguém falando na minha cabeça "essa menina precisa parar de ler desse jeito, isso faz mal!"... outra lembrança boa é meu avô João, sertanejo rude e iletrado, que despertava até medo, tamanho o respeito na família... pois este homem rude me colocava no colo e contava 'causos' intermináveis de fantasmas, de mulas sem cabeça, de luzes que brilhavam em cemitérios em noites escuras, de onças e caçadas e tantas outras aventuras e fazia minha imaginação voar e despertou a vontade de também ser contadora de histórias... e tudo o que posso imaginar é que quis ser jornalista por influência direta dessas duas pessoas tão importantes na minha vida - e que talvez nunca tenham imaginado isso. É, acho que quis ser jornalista porque gosto de contar histórias... e o desejo de criança se realizou, fui mãe - três vezes. Mas ainda não sou jornalista - embora goste de contar histórias.
"Para permanecer nessa ideia, termino dizendo apenas que sou jornalista porque gosto de contar histórias. Gosto de contar histórias porque me gusta conhecer histórias. E gosto de conhecer histórias porque há muitas delas esperando para serem contadas, apesar de quase ninguém perceber. Infelizmente, algumas narrativas não podem ser vividas. Mas contadas, imagino eu, cada uma daria um clássico, embora se fosse eu a autora da obra não saberia como terminá-la. E uma história inacabada é um drama para qualquer escritor, ainda que se trate de um amador."
... Então. num desses passeios pela net, sem rumo e sem prumo, fugindo do material que me olha de sobre a cama para estudar, vou ler o blog de minha filha, ídolo incondicional. E vejo um texto, "Papai Noel veio em junho" http://tatilazz.blogspot.com/2009/06/papai-noel-veio-em-junho.html, de uma sua amiga. E vou ler. E me emociona o texto, a história, seu pai. Talvez a saudade de meu pai, que já não posso mais curtir, tenha potencializado minha emoção - mas não acredito. Sei que amo o texto que leio, e resolvo ler mais embaixo 'despertador', 'três fatos', 'histórias'... e descubro que gosto muito, muito de seu jeito de escrever, de como expõe os sentimentos, de como encadeia as idéias, de como usa as palavras, de como me faz lembrar de porquê eu sonhei, um dia, ser jornalista. E sinto vontade de contradizê-la quando ela diz 'falta-me talento'. Escritora nata, contadora de histórias da melhor qualidade, jornalista de talento, uma mulher traçando seu caminho e escrevendo sua história e muitas outras que valem a pena... grande garota, essa menina Tatilazz, Tatiana Lazzarotto, a filha do Papai Noel, de quem já ouvi tantas histórias contadas por Paulinha e que conta histórias que eu gostaria de ter contado, que faz poemas que eu gostaria de ter feito... autores que me fazem sentir assim despertam minha total admiração.
... A partir de agora, sou sua fã. Declarada, porque fã, na verdade, eu já era. :)

sexta-feira, junho 05, 2009

Do fundo do baú - 02


Não se acostume com a palavra amor.
Não faça dela um lugar comum.
Não a banalize.
Não a utilize em vão.
Que cada vez que seus lábios a pronunciem
venha com sabor de fruta madura colhida no pé
daquelas que dá vontade de agarrar com as mãos
levar à boca
trincando os dentes
se fartando em seu sumo e polpa.
Que cada vez que o som sair de sua boca
traga o prazer da água cristalina
bebida na fonte
aplacando a sede mais feroz.
Que a palavra amor seja em seus lábios
verdade e sentimento.
E em seu coração, todo imensurável bem que é.

quarta-feira, junho 03, 2009

Do fundo do baú - 01


Arrumando a casa chego, finalmente, aos papéis.
Escritos antigos, rascunhos, poemas, crônicas, enfim... coisas que nem me lembrava mais, palavras rabiscadas em momentos indefiníveis na memória... para reorganizar, colocar aqui um a um, por um tempo. Até porque minha produção hoje é pífia, há muito não escrevo, há muito não tenho 'surtos' criativos... então, do fundo do baú, um poema - meio erótico, talvez. Filhas, não se escandalizem. Essa, afinal, é sua mãe - mulher antes de tudo.
...
Ouço o barulho do portão
nem bem chego à porta
meu homem
todo mãos
e mãos
e mãos
e língua
e beijos
me tira o fôlego
e nem sei
minhas mãos
onde vão.
Seu beijo me toma toda
e o vestido no chão
apara o gozo
protege o corpo
desse urgência
sua
minha
sempre.
Então
brincando
displicente
com um bico
do meu seio
me olha
sorriso maroto
'oi, meu amor.
senti saudade.'
Essa é minha verdade.

quarta-feira, maio 20, 2009

Casa cheia!


Sua ausência toma todos os espaços. Eita ausência espaçosa, sô!

terça-feira, abril 28, 2009

Pequeno monólogo para você


Confesso que, ao saber de sua existência, minha primeira reação - depois da raiva e da indignação - foi curiosidade: é bonita? Inteligente? Bem humorada? Melhor que eu em quê? Creio ser natural da essência feminina esta curiosidade sobre 'a outra', quando se depara com sua existência.
Depois a identificação, afinal haviam semelhanças: envolvidas com o mesmo homem - de maneiras diferentes, pode ser, mas cada uma com uma história romântica (?) pra contar sobre este envolvimento. Eu havia feito há um ano uma cirurgia a que você se submeteria exatamente um ano depois. Ambas de signos de fogo, fortes, independentes, bem resolvidas (?). Depois veio a reflexão, a ponderação. Cobrar algo de você? Impossível, pois não nos conhecíamos, não tínhamos laço algum, você não me devia nada - nem consideração. Para cobrar, necessário ser à pessoa certa, aquele que colocou você na minha vida, mesmo que indiretamente e sem permissão - com ele, sim, haviam laços, carinho, amor, entrega, consideração, confiança. Se fosse pra cobrar, o devedor era ele, não você. Possível perdoá-lo e a tudo o que aconteceu, o modo como aconteceu? Possível? Talvez, com maturidade e todo o aprendizado de vida que eu trazia. Tentei - continuo tentando. Possível perdoar sua existência no contexto? Quem sabe? Então conversamos, eu e você. Enorme conta de celular, necessária porém - pelo menos pra mim. Pra tentar absorver, entender, aceitar. E experiências anteriores, inflexibilidades anteriores, arrependimentos anteriores me levaram a 'perdoar' e persistir, 'vejamos se dá certo'. Muito contribuiu pra isso nossa conversa 'não, eu não o quero mais, de maneira alguma...'. Porque existem coisas que eu não sei dividir, sabe? E relacionamento amoroso é uma delas. E ele me conta que você ligou várias vezes querendo vê-lo, que mandou inúmeras mensagens, que mandou e-mail, que o procurou - até se matriculou na mesma academia que ele! Penso com meus botões que você não foi sincera comigo (nem tinha porquê, não é mesmo?), e está certa: batalhando por algo que quer, que deseja, que acredita conseguir. E digo a ele: 'meu compromisso é com você. Que ela o procure, tente seduzi-lo não é problema meu - que você não resista, é'. E sigo minha vida, alheia à você que insiste em se fazer presente, visitando amiúde meu perfil no orkut, criando fakes pra se aproximar de mim, convidando meus amigos (reais) pra lhe adicionarem, buscando referências em coisas do meu universo (fragmentos)... ainda assim, sigo meu caminho, embora não resista a breve interlúdio (monitorando?). E pronto. Não visito seu perfil - acho meio mórbido isto de ficar olhando, querendo saber - não, não sou alienada, apenas não sou encanada. E sim, acredito de verdade que seríamos amigas se nossos caminhos houvessem se cruzado em circunstâncias diversas: você parece ter senso de humor, parece inteligente, parece ter bom gosto, enfim, parece uma pessoa legal, e penso que havemos de ter muita coisa em comum. Mas as circunstâncias não foram as mais propícias pra se cultivar uma amizade entre nós, há de convir comigo. E continuo caminhando, alheia à você. Aí descubro que você mandou email pra minha filha (mais que um), contribuindo pro blog dela, onde conta que acompanha meu blog, e nosso blog. E continua visitando meu orkut, no dia do seu aniversário inclusive, será que queria os parabéns? Cabe aqui ser honesta: está começando a me incomodar. Por que isto, esse acompanhamento constante? Gostaria muito que você passasse uma borracha sobre o que aconteceu, sobre minha existência, enfim, e me ignorasse. A mim, aos meus amigos, aos meus filhos. O mundo é bão, Sebastião, já dizia uma grande amiga de minha filha. E acrescento: o mundo é enorme. Tanta gente nele pra você conhecer, pra você conversar, pra você ser amiga... 'vai, Carlos, ser gauche na vida', já dizia Drummond. E parodio o poeta: vai, Petit Jolie, ser feliz na vida.

quinta-feira, abril 09, 2009

Resiliente


Sob as nuvens
traço rotas
que nem sempre
levam a algum lugar.
Sob
as nuvens
sigo
a traçar.

quinta-feira, abril 02, 2009

"Não me acho..."


Durante muito tempo convivi com pessoas que, apesar de não fazerem diferença na minha vida, não gostavam de mim. De alguma forma me achavam metida, bossal, pedante, prepotente, petulante e todos os outros adjetivos nesta linha que se possa pensar - e, como boa leonina que sou, me surpreendia quando apenas desconfiava que havia alguém no mundo que podia não gostar de mim. 'Como assim, não gosta de mim? Se eu nem conheço essa pessoa...' ou 'Mas se nunca fiz nada à ela, nem de bom nem de ruim, porque não gosta de mim?'. Tinha dificuldade em entender que às vezes era assim: justamente por não fazer parte do meu universo aquela pessoa não gostava de mim. Havia também aquelas poucas de quem eu não gostava, e não queria que gostassem de mim também - e realmente sempre foi muitomuitomuito pouco o número de pessoas que eu não gostasse, por um motivo ou outro. Gosto de gente, e ponto.
Mas houve um tempo em que algumas pessoas não gostavam de mim por causa da minha atitude, e a culpa disso foi toda de minha família, que me fez quem sou. Descobri que tem gente (mais do que seria desejável) que não tem auto confiança, cujo amor próprio é frágil e delicado, e que não consegue conviver com pessoas que 'se acham'. E feliz ou infelizmente, olha eu aí incluída neste grupo. Ops! "Não, mãe, você não se acha: você tem certeza!" :)
E sim, se me acho, sou uma achante inocente - a culpa é toda de meus avós, de meus pais, de meus tios, de meus irmãos, de meus primos, de meus filhos, de meus sobrinhos, de meus padrinhos, de meus amigos... e explico: desde que me entendo por gente, me acompanha a sensação (tá, tudo bem, descontando poucos momentos de fragilidade emocional...) de ser amada. Cresci com a certeza do amor incondicional de minha família: me mostravam sempre que eu era bonita, meiga, inteligente, esperta, criativa, querida; que os erros que cometia todos tinham solução, de que o mundo era o limite pra mim e os meus sonhos... havia sempre um colo quando eu caía, um ombro quando eu chorava, um abraço quando ficava carente; um ouvido pras minhas canções, pros meus sonhos; uma resposta pras minhas dúvidas; e infinita esperança sobre minha felicidade... como não crescer me achando?
Tudo isso desenvolveu em mim a auto confiança e o amor próprio, o que me faz caminhar pela vida de cabeça erguida, ombros em prumo, nariz erguido olhando o sol e as estrelas... apesar das dúvidas, dos medos, das encruzilhadas, dos tropeções. Por isso a felicidade é parte de mim.
E acho que consegui passar um pouquinho disso para os meus filhos... mas tenho certeza de que errei em um ponto: eu sempre acreditei, e sempre disse :'conheço muito ex marido e ex mulher... mas não conheço ex mãe, ex pai, ex irmão (o que, inclusive, lembra outra história legal de contar com o San), ex filho'... nunca coloquei o amor de um homem no mesmo patamar do amor de família (sabe, né? Sempre há a possibilidade de se tornar ex...) e hoje acredito que estava errada. Afinal, não é um homem e uma mulher o ponto de partida pra família que dá tanta segurança? Talvez tenha me faltado maturidade pra ver com os olhos certos isso aí... mas sempre pensava que homens podem trair (não que isso seja imperdoável ou que mulheres não traiam, é que conviver com traição é complicado e mulheres não fazem meu tipo...)
mas hoje caminho pela vida com olhos de ver além e maturidade de entender o que antes não aceitaria, e trago essa certeza no coração: um homem também alimenta nossa auto confiança, nosso amor próprio, nossa auto estima. Um homem também pode nos fazer sentir sempre linda, inteligente, criativa, sensível, importante, sedutora, sexy, essencial... o amor de um homem pode fortalecer nossos passos pela vida.
É muito bom sentir-se amada.

É muito bom.

quinta-feira, março 26, 2009

Lembranças


Aquele dia não houve aula - a tempestade que havia castigado a cidade tinha deixado a escola sem luz.Voltávamos para casa, eu e meu irmão, como sempre, a pé - afinal, a distância não era muita, e na verdade este percurso era feito com muita farra e brincadeiras, no alto de nossos dez e oito anos de idade. No meio do caminho tinha uma praça, tinha uma praça no meio do caminho, onde amávamos correr livres e soltos, gastando boa parte do tempo de volta pra casa... mas neste dia em particular estava toda molhada e meio alagada em alguns pontos, então não nos demoraríamos com brincadeiras, mas vínhamos rindo e conversando, quando meu irmão saiu correndo:
- Arrahhhhhhh!!! Eu sou o Tarzannnnnn-êêêêiiiiiaaaaaaaaôôôôuuuuuuuuuuuuu!!!!!!!!!
Só percebi que seu grito na verdade não era a imitação do herói quando, num solavanco, ele foi atirado bem longe do 'cipó' onde havia se pendurado pra brincar de Tarzan, e caiu num tombo feio e barulhento, começando a chorar... na verdade o pobrezinho havia pulado com toda vontade num fio de energia rompido pela chuva, mas ainda com corrente elétrica... depois de acudir, apavorada, e ver que estava tudo bem, me acabei em um riso que parecia não ter fim!
Esse episódio faz parte de uma coletânea que amamos recordar nas festas de família, regadas a cerveja, churrasco e música sertaneja...
Vez em quando dá uma saudade tão grande e tão boa de momentos assim...

quinta-feira, março 19, 2009

Do pai dos burros...


PERTENCENTE, adj. Que pertence; concernente. relativo. per.ten.cen.te.
PERTENCER, v. t. Ser propriedade de; formar; ser parte de; dizer respeito; caber; incumbir; ser devido ou merecido; ser próprio de; ser de jurisdição ou obrigação de alguém. per.ten.cer.
'PERTENCENIMENTO': neologismo criado por minha mente fértil. :)
A primeira vez em que esta palavra me veio à mente, sem saber se existia ou não (mas tudo o que tem nome existe!), foi num momento muito triste da minha vida: o velório de meu pai.
Num instante qualquer do tempo em que o corpo de meu cabeça branca era velado e pranteavamos sua partida, olhando toda a família ali, sentindo o carinho e o cuidado de todos os tios, primos, amigos nos envolvendo e protegendo, alguns vindos de tão longe apenas pra se despedir dele, me invadiu como nunca a sensação de "pertencer". De fazer parte de uma família enorme, maluca, unida, solidária. De ser parte da vida de pessoas que fazem a minha vida. De saber de onde vim, quem sou, porque estou aqui. De pertencer à uma grande unidade aconchegante e protetora, formada de várias pequenas outras unidades... me invadiu, apesar da dor imensurável que sentia naquele momento, um grande conforto ao poder ter o aconchego e o carinho de todos ali, sofrendo conosco a perda do 'tio Ney', e querendo amenizar um pouquinho que fosse a nossa dor... acho que nunca, em todo meu tempo de vida, foi tão importante a minha família toda reunida: todos os tios e primos, tanto por parte de mamãe quanto de papai, sofrendo conosco e dando força pra segurar a onda e superar a dor... a palavra que me veio naquele momento, que definia essa coisa tão boa que me invadiu, foi esta: PERTENCENIMENTO. A sensação de saber quem sou; de onde venho; que existem pessoas que, mesmo conhecendo minhas manhas e meus defeitos, me amam e aceitam como sou... a sensação de pertencer a um lugar, a um grupo, a uma célula forte. A sensação de ser amada sem restrição.
...
Para a minha mais fiel e crítica leitora, esta explicação - desnecessária, pois também ela sabe o que representa esta palavra, também ela sente exatamente o que sinto. Espero, porém, que tenha sido satisfatória. É algo mais que SHUMP - e não mensurável.

quarta-feira, março 18, 2009

Tempo, tempo, tempo.


Algumas coisas acontecem, às vezes, sem motivo - ou talvez nós é que não percebamos a razão - e mexem tanto com o sentimento da gente...
Ontem falei com mamãe pelo telefone, tão bom o papo, tão grande a saudade... tão bom este colo sempre tão pronto e cheio de aconchego...
Ontem falei com Lucia pelo Orkut, e deu uma saudade tão grande... tão boa... tão inexata...
Ontem recebi um e-mail de Marcinha, colega de faculdade, a quem nunca mais vi depois da formatura, falando sobre o último encontro da turma (já houveram vários, e não estive em nenhum...). Outra saudade, diferente, indefinível.
E um sentimento tão exato de 'pertencenimento'.

quinta-feira, março 12, 2009

Sobre o amor e sobre amar...


Já diziz Goethe que 'nada nos faz necessários a não ser o amor'.
...
Tão bom olhar a lua cheia, imensa, iluminando a varanda de casa e saber que você olha a mesma lua na janela do seu quarto, e essa lua tão cheia nos aproxima... tão bom saber que o lugar ao seu lado na cama está guardado pra quando eu chegar... tão bom ter o ninho dos seus braços pra me aconchegar e fazer me sentir protegida... tão bom nosso abraço e nosso encaixe... tão bom seus dedos enrolando meus cabelos enquanto conversamos baixinho... tão bom sua pele na minha, seu calor misturado ao meu, seu colo, seu cheiro, seu olhar carinhoso e seu jeito protetor... tão bom você na minha vida!
...
Tão bom me sentir necessária...

quinta-feira, março 05, 2009

Pequeno balanço 'sentimental'


1. Minha mãe mora em Goiânia.
2. Meu irmão mais velho mora em Itapeva.
3. Meu irmão mais novo mora em Goiânia.
4. Minha irmã mora em Goiânia.
5. Minha filha mais velha, que passa um tempo comigo, está programando sua partida.
6. Minha filha mais nova mora em Curitiba.
7. Meu filho mora em Curitiba.
8. Meu namorado mora em Salvador.
9. Tenho (verdadeiros) amigos em Foz do Iguaçu.
10. Tenho (verdadeiros) amigos em Curitiba.
11. Tenho (verdadeiros) amigos em Corbélia.
12. Tenho (verdadeiros) amigos em Mar Grande.
13. Tenho (verdadeiros) amigos em Goiânia.
14. Moro em Valença.
.
.
.
Acho que não bato bem das idéias, afinal.

quarta-feira, março 04, 2009

Agenda da Tribo, ainda


Não gosto de quem tem sempre certeza
de quem não suspende a respiração por um amor
de quem encerra todas as frases com ponto final
de quem não exclama, diz que não ama
de todos aqueles que nunca passaram mal
Não gosto dos que nunca sentiram a chuva em seus rostos
não gosto de quem nunca morreu de rir
nem chorou a noite inteira por alguém
Não gosto dos que não gostam de cachorro
dos que não tem sua música preferida
filme preferido
dos que sempre tanto faz
dos que nunca querem mais
Fernanda Michele Maciel Sarate

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Poema


sinto, meus filhos
se só lhes deixo
palavras ao vento
retalhos (gastos)
de versos inacabados
dívidas de dúvidas
pra que vocês (a) paguem
(cem conflitos)
dividam entre si
(e transmitam aos seus)
a riqueza de espírito
(Valéria Tarelho)
...
Não sei quem é a autora, não tinha ouvido falar dela até este momento, quando me deparo com este poema no Livro da Tribo de 2009, nona página. Gostaria de tê-lo escrito. Como não o fiz, o reproduzo com o devido crédito. Serve de testamento para mim também.
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domingo, fevereiro 15, 2009

"Mais um ano que se passa, mais um ano sem você..."


"... já não tenho a mesma idade, envelheço na cidade..."
Hoje é um aniversário.
Ao contrário de tantos outros, não há bolo, não há balões, não há docinhos, nem festa, nem alegria. Talvez já exista um pouco de paz. Talvez a dor já não seja tão grande; talvez, por ser companhia constante, já tenha me habituado a ela, talvez. O que sei é que já posso me lembrar sem lágrimas - quase sempre. Salvo poucas vezes em que sou pega de surpresa, ao som de 'fio de cabelo', num momento frágil, e aí não consigo mesmo segurar a onda - é tão forte sua presença, sua voz cantarolando, o som de seus passos no corredor, o seu sorriso ao pegar no pé de alguém que não dá pra segurar - e em silêncio as lágrimas descem.
Penso muito no senhor, paizinho, amiúde. Não, não penso conscientemente nem deliberadamente. Não penso na falta que me faz (apenas sinto) ou em como se foi. Penso muito em sua vida, que foi um aprendizado pra mim. Penso em todas as dúvidas e medos e anseios que o senhor teve, penso nos sonhos que sonhou e não pôde realizar, penso em tudo o que abriu mão por nós, penso em erros tentando acertar, penso na sua fragilidade não exposta, penso em como se sentia cada vez que os problemas batiam, em família, à sua porta.
Uma vez li, em algum lugar, que só conhecemos e valorizamos verdadeiramente nossos pais depois que eles se vão, e acreditava, do alto de minha soberba sabedoria, que já o conhecia e valorizava o suficiente, talvez até mais do que o senhor merecesse. Meu Deus, quem sou eu???? Quem sou eu pra pensar em julgar o que o senhor merecia????? Quem sou eu pra saber o que ia em seu coração cada vez que traçava passos em linha reta e o destino teimava em desviar para um lado, para outro, para trás? Quem sou eu pra saber de seus medos, suas angústias, quem sou eu senão a filha mimada e egoísta que só via seu próprio umbigo, achando tolamente que o mundo girava em torno dele??? Ah, Deus, como era certo o texto que li! A falta, a saudade, a certeza de não poder mais partilhar momentos alegres ou tristes, tudo isto redimensiona nossa visão, nossos conceitos, nossa fé.
Hoje faz um ano que o senhor partiu. E hoje sei que queria ter tido mais tempo pra estar junto, pra conversar, pra colocar no colo, pra pedir colo. Hoje sei, com toda certeza do mundo, que tudo o que vale a pena na vida é o amor, e que é importante estarmos juntos àqueles que amamos, e não perdermos tempo brigando, discutindo. Hoje sei mais que nunca o quanto o amei, meu pai, enquanto estava pleno de alegria entre nós, e o quanto este amor ainda é vivo dentro de mim. E o que me deixa com um pouco de paz no coração é saber que, onde quer que esteja, o senhor sabe disso tanto quanto eu - sabe de meu amor, de minha gratidão, de meu respeito e de minha admiração. Eu só queria ter tido sabedoria pra demonstrar isto enquanto estava ao seu lado - mas isto é algo que não dá pra mudar. E que vai me acompanhar pra sempre. Assim como o meu amor, papai.
A foto aí de cima foi tirada logo depois do natal de 2007, momentos antes do San viajar de volta pra casa. Pouco menos de dois meses de sua partida. O último natal em que estivemos todos juntos - e o senhor já estava tão frágil, papai. Talvez fosse melhor não colocá-la aqui - mas é pra aplacar um pouquinho essa saudade, e essa dor de saber que momentos como este não vão mais acontecer.
Fica em paz, paizinho, onde quer que você esteja, com a certeza de nosso amor e nossa gratidão por ter nos proporcionado a chance de sermos quem somos, e por ter nos permitido ser tão felizes enquanto estava entre nós.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Penso, logo existo.

Não devia ser sonho, logo existo? Em fase de questionamento... será que quarenta e quatro anos é muito tarde pra se descobrir? Crise tardia de identidade? Puxa! Se Lya Luft começou a escrever aos quarenta, se viveu um grande amor depois desta idade, se mudou sua vida a partir de então... Tá, tudo bem. Não sou Lya Luft, bem sei. E ainda bem, porque se fosse, perderia seu exemplo que amo citar! :) Mas como Lucemary, não posso ter essas crises? Esses questionamentos? Questiono-me desde sempre, pelo que me lembro - apesar das certezas todas que carrego comigo, desde sempre também. Lucemary. Lucemary Peres. Lucemary Peres de Assis. Lu. Looper. Coisas bobas, pensamentos bobos, questões bobas. Será? Elocubrando, apenas. Por falar nisto, existe mesmo esta palavra? Não encontro agora o 'pai' pra saber - e tô com preguiça de procurar na net. Foi só pra contar pra minha fiel, atenta e tão semelhante leitora, que faz parte, afinal: medos, dúvidas, questionamentos. Mas a melhor parte é quando a gente "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima"! Ou, como diria um leonino genuíno, quando a gente sacode a juba, arranha a garganta num rugir sensacional, olha em volta e percebe que tudotudotudo vale a pena. Até os medos revelados inadvertidamente - porque no fim, você é soberano, e pronto. Nem que seja de seu próprio mundo - ou de seu infinito particular.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Caminhos, destinos e afins


A gente nasce e bom... não tem muita escolha. Somos cuidados, bem ou mal, por nossos pais, a quem podemos amar ou não, e que traçam nosso caminho até que estejamos aptos a nossas próprias escolhas.
A primeira delas, no meu caso especificamente, foi o vestibular. "O que é isso de relações públicas, filha? Tem doutora antes?". Não, mãe, não tem. Na verdade não tem nem muito futuro se a gente não acredita de verdade. E na verdade essa escolha foi errada, eu queria jornalismo. Optei por RrPp por ser menos concorrido, de escore menor, e por ironia, passei com média suficiente pra jornalismo. Mas aí, pensei, posso depois fazer reaproveitamento e 'voilá': dois cursos! Que nada... no meio do caminho, outro caminho se cruzou ao meu, e juntos trilhamos outros passos que nos levaram a escrever uma grande história e três filhos e depois, nossos caminhos se separaram. E aí também não haviam escolhas, filhos pequenos e uma vida pra levar... não dava pra sonhar. Os filhos cresceram um tanto, e cada um seguiu seu caminho, entoando seu canto ao vento... e aí então, era a hora de outra escolha. E a escolha foi por voltar atrás, pra cuidar das pessoas que haviam cuidado de mim, me dado amor, me possibilitado ser quem sou... até a despedida triste, e a constatação de que, por mais que caminhemos, nossos caminhos sempre parecem incompletos, imperfeitos, inacabados. Então, mais uma vez, escolhas. Sem marido, sem filhos, sem pais, sem ninguém que precise de mim. Podendo escolher de verdade o caminho - de sonhos ou não. Meu Deus, como é difícil!!! Escolho chutar o pau da barraca, jogar tudo pro ar e ir viver na praia, com um ateliê de artesanato, vendendo sanduíche natural e escrevendo poemas... mas esta escolha, a dos sonhos, infelizmente não paga as contas. E estas, rapaz, são tantas!!!!
É isso aí. Uma pessoa, numa encruzilhada, e alguns caminhos. Qual deles escolher? Qual seguir? Será que saberei escolher o que eu quero de verdade? E o que eu quero de verdade? O que me fará feliz? Será que algo me fará feliz?

quarta-feira, janeiro 07, 2009

"Eu prefiro ser..."


"... essa metamorfose ambulante..."
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Quando as pessoas cantam esse refrão da música do Raul, esquecem o restante. Acham que 'metamorfose' aplica-se somente à aparência. Esquecem o 'do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo'...
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E eu não consigo ser assim. Mudo a aparência, mudo os sonhos, mudo as crenças - embora a essência permaneça.
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Hoje estou loira, loiríssima.
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E acredito que, contrariando Jobim, 'é possível ser feliz sozinha'...
Se bem que isto não é uma mudança, né? Já que sempre acreditei nisto...

sábado, dezembro 20, 2008

Perfil


Leonina,
ascendente em peixes.
Dragão no horóscopo chinês.
Adaga no horóscopo cigano.
Estrela no horóscopo druída.
Número de destino: cinco.
Filha de Ogum,
sob proteção de Vehuiah.
Mulher de fases, hoje sou mais eu, mais que sempre, mais que nunca. Minuano cantante em madrugada de inverno, acalanto noturno na noite insone, plena de sonhos a se realizar. Brisa suave na Bahia de Todos os Santos, sobre o mar escuro e o reflexo da lua, que envolve o corpo e faz viajar. Ar rarefeito no planalto central, sob infinitas estrelas que brilham como em nenhum outro lugar. Agitada, suave, parada. Posso ser tudo e posso ser nada. Fluida criatura sem rédea, sem freio, sem arreio... Balzaquiana, autêntica, absoluta. Hoje sou mais eu, mais que sempre, mais que nunca. (Escrito um dia pra o perfil do Orkut, publicado aqui pra não se perder...)

domingo, dezembro 07, 2008

Sobre sonhos e significados.


Não sei se sou uma pessoa mística. Às vezes acho que sim, às vezes tenho dúvidas.
Sou sim, uma pessoa de fé. Acredito em Deus, de uma forma que não sei explicar. Acredito que exista uma 'força estranha', como dizia Roberto Carlos, que me leva não a cantar, mas a viver. E a acreditar, num ciclo sem fim, enfim.
. Estávamos, Paulinha, eu e Tata conversando, na cozinha. Na varanda da frente, mamãe fazia as unhas. Havíamos chegado de viagem há pouco, e depois de conversarmos um pouquinho, ela voltou à manicure para depois se juntar à nós na cozinha - e na cozinha, conversávamos animadas sobre sabe-se lá o quê, amenidades, besteiras, aquelas coisinhas que se diz quando se está bêbada de alegria, e essa era a sensação do momento: estávamos, as três, embriagadas de alegria pelo encontro. Aí ouço, bem clara e nítida, papai dizendo lá de dentro: " - E a mochila da Loira, vocês trouxeram?" " - Está na mochila, Papai." As duas me olham, um tanto surpresas, quando respondo assim, e papai insiste lá de onde está: " - Pega e tira logo da mala, se não vocês vão acabar esquecendo!" " - Ai, papai, o senhor não muda nunca, que coisa! Já vou pegar, não vou esquecer, pode deixar! Eita, Tati, que esse seu pai não muda nunca!!!" Olho para as duas e suas expressões de espanto, medo, surpresa, sei lá o quê, faz de repente a ficha cair: papai não está mais entre nós. Mas a voz que ouvi foi clara, foi real, foi... começo a chorar, e mamãe vem lá de fora, "filha, não fica assim, o que tá acontecendo?", "não sei, mainha, não sei, não consigo esquecer, papai está tão vivo dentro de mim, na minha memória, sei que de alguma forma o atrapalho, mas não consigo, não consigo não lembrar, não sentir sua falta, não pensar que poderia ter sido diferente..." E o choro vem, copiosamente. Não consigo controlar minha lágrimas, os soluços, não consigo não chorar, por mais que mamãe tente me acalmar, me consolar... tenho o rosto molhado, inchado pelo pranto e aí... acordo. Acordo com o rosto molhado, inchado pelo pranto, o travesseiro enchacardo pelas lágrimas e me dou conta de que era um sonho. Um sonho que expressa tão bem como tenho me sentido que provocou lágrimas reais. Aí, quando entro no orkut pra vir aqui postar (caminho natural, pra ver se tem recados novos), o recado de uma amiga de tanto tempo contando que perdeu a mãe em julho, e que é uma dor tão grande, e... Sinto falta de meu pai. Sinto falta do arrastar de seus chinelos pela casa, cantarolando 'Carolina, Carolina...', sinto falta de nossas discussões que ele alimentava meio com alegria, meio com pesar, acho que só pra me ver discordar dele... sinto falta da sua presença pela casa, da sua preocupação com cada filho, sinto tanto tanto sua falta. Sinto falta de meu pai - e ainda não aprendi a conviver com esta falta em seu lugar. Acho que talvez seja o natal chegando. O primeiro natal sem ele. Sim, sei que virão muitos, sei que todo mundo perde alguém que ama, sei que este é o caminho natural, sei que todo mundo parte um dia. Sim, eu sei. Mas ainda estou tentando trabalhar isto dentro de mim, estou tentando aprender. Sei que um dia vou conseguir. Por acreditar em Deus, acredito que meu pai está bem, onde quer que esteja. . E por acreditar em Deus, sei que vou conseguir.

quarta-feira, novembro 19, 2008

Um dia comum

"Um dia feliz às vezes é muito raro..." (Jota Quest) Por vezes, ouvindo esta música, imaginamos que, prá um dia ser feliz é necessário algo diferente, inesperado, surpreendente - e nem sempre é assim. Dias comuns são os mais felizes - como hoje. Dia de sol e preguiça. Dia de me deixar ficar, sem pressa, sem tempo, sem compromisso, sem hora pra levantar, pra comer, sem hora marcada pra nada - dia como há muito não havia. Dia de partilhar a paixão pela criação, e melhor, a companhia de Cloé. Um dia feliz.

sábado, novembro 15, 2008

Pensando no ônibus

"- Oi, amor da minha vida!" " - Mãe? Como você sabia que era eu?" " - Uai, eu não sabia. Mas vi o DDD 45, e daí só duas pessoas poderiam me ligar, e os dois são amores da minha vida..." " - É, mas eu tô ligando do celular do pai... e se fosse ele?" Pausa para pensar. Penso que ele já foi o amor da minha vida um dia, mas não poderia dar esta resposta, até porque o amor da minha vida de hoje está ao meu lado e é ciumento pra caramba, ia rolar estresse e isto é a última coisa que eu quero numa noite de sexta feira... não lembro o que respondi. Só me lembro de processar a informação: "mãe, hoje é a formatura do Matheus." A ligação horrível, peço pra ela ligar mais tarde, quando ele pudesse falar comigo, as lágrimas rolando já, é formatura do meu filho e eu não estou com ele. Mais uma vez. Eu jurava que a formatura dele era hoje, sábado. Mas jurava em falso, né? Não que isso amenizasse o fato de estar distante nesta data, mas pretendia ligar pra ele dando os parabéns (sim, orgulhosíssima de suas médias anuais, apesar de conversar muito...), lembrando o quanto o amo, justificando (mais uma vez) o fato de não poder estar presente na sua formatura de segundo grau... e não fiz nada disso. Não falei com ele antes, não falei depois - não me ligaram. E não tinha créditos pra ligar. E não tinha o número da casa pra ligar com cartão (sim, ainda não refiz minha agenda depois que o ladrão levou o telefone dele), e chorei e chorei e chorei. Mas não chorei tudo o que meu coração pedia. Hoje acordei inchada, não sei de tanto chorar ou de represar todo o choro ainda por sair. Acordei mal humorada, acordei irritada, acordei de um jeito que seria melhor nem acordar. Ontem, voltando do shopping pra casa, olhava os prédios todos e suas luzes acesas dos apartamentos, e imaginava a vida em cada um deles, e os dramas pessoais de cada morador, e quantos estariam se sentindo como eu... e pensei este texto que queria escrever aqui, mas não rascunhei... não sei porque cargas d'agua não estava com minha cadernetinha, e se pelo menos não esboço o texto, depois ele não vem mais. Não como imaginei, não como senti, não como desejei. E agora, escrevo apenas pra dizer, Matheus, que apesar de não ter ligado, de ter sido uma mãe relapsa, amo você. Tanto, tanto, tanto. Queria ser a mãe perfeita, a melhor, a presente em todas as horas, seu colo, porto seguro, sua amiga, confidente, cúmplice. E não sou. Desculpe por isso, meu filho. Queria ter estado com você ontem, vê-lo receber a homenagem justa por vencer mais esta etapa em sua vida, chorar de emoção (alguma dúvida de que me desmancharia?), lhe encher de beijos, de abraços, de beijos, de abraços, de dengos, deixá-lo desconcertado como fica às vezes com minhas demonstrações públicas e efusivas de amor e carinho... queria ter partilhado este momento especial com você, meu filho. Queria muito. Desculpe, mais uma vez.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Então, férias...


Engraçado.
Meses antes das férias eu planejava o que fazer: vou pro sul, pra formatura de Matheus, ver os amigos que não vejo há uns cinco anos; na volta passo em Goiânia, ver mamãe e a galera; vou marcar todos os médicos e dentista que preciso; vou comprar material de scrap e fazer um moooooonte de montagens; vou pra ilha, ficar de papo pro ar, morgar, pra praia pegar uma cor, ficar dias inteiros na rede ouvindo o vento nos coqueiros, vou prum boteco com Cloeh ficar vendo a vida passar entre um copo de cerveja e um bolinho de bacalhau; vou conhecer Morro de Sao Paulo e Pancada Grande; vou... nada. Vou pegar a grana das férias e pagar contas, cobrir o cheque especial, liquidar a fatura do cartão, e pronto. Aproveitar e fazer faxina nos meus papéis, nas coisas de artesanato, preparar o natal... coisinhas que não precisam de grana. E, se conheço bem meu irmão, vou poder ir à Gyn, sim, mesmo sem grana. Acho que adoro quando ele bebe e sente saudade de mim!!!! :)
"- Que dia você vem pra cá?"
"- Ih, maninho, não vou não. Paguei cartão, cheque especial, tô sem grana."
"- Êêêê, você, viu?" "- Sério mesmo. Tô ferrada de grana..."
"- Viu? Você vem. Eu pago uma passagem..."
:)
Este é meu irmãozinho. E não é irmãozinho porque disse isso não - nem porque é pequenininho, quem o conhece sabe disso. É irmãozinho só porque é o mais novo, por que fora isso, é um irmãozão. É ciumento, é cuidadoso, é família, é amoroso. É porto seguro pra quem ele ama - tudo bem, lá do seu jeito meio truculento, meio impositivo, meio mandão... mas o que importa? O que importa é que ele sabe que amor é tudo. E família é amor. E ele sabe tudo de amor. Tanto que tá bravo comigo, por que meus filhos não vão pra Goiás neste fim de ano, só porque estou morando longe, e falta tempo($$$) pra eles virem aqui e irem pra lá.
Que Deus não permita que ele mude. Ele, agora, é o elemento agregador. E é tão, mas tão, mas tão bom saber que ele tá lá, e que posso contar com ele pra me ouvir, pra me amparar, pra me apoiar - mesmo que às vezes eu tenha que puxar sua orelha, né não? ;)
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Este post era pra falar das férias, que estão aí desde segunda (e hoje é quinta!) e não fiz nada ainda. No fim, foi muito mais legal. Como sempre, tudo o que não é planejado acaba sendo melhor.
:)
Férias, então.

domingo, outubro 26, 2008

Pausa para organizar mudanças


Em dia de decisão tomada e algumas mudanças... e não, não são mudanças radicais. São ajustes para gerir meu dia a dia e os projetos que me propus a tocar.
Como ainda estou me organizando, revendo como vou fazer a partir de agora que só terei este blog para escrever, fora o Pipoca e Coca Cola - que partilho com as meninas; e o Mosaico, esta imagem que encontrei na net é o que melhor revela como estão meus sentimentos neste momento.
:)
Postando para constar.

domingo, outubro 12, 2008

Sobre amar e não amar


Pergunto-me porque amar, às vezes, é complicado.
Devia ser simples: eu amo, e pronto. E ponto. Mas não é. Nem sempre é. Porque a dificuldade em aceitar o outro como ele é? Porque medos e inseguranças sobre o sentimento do outro? O que importa não é o que sinto? Não é isso o que me faz feliz? Claro que se amo e sou amada (e tanto o objeto de meu amor quanto quem me ama são a mesma pessoa) é muito melhor. Claro que a certeza de ser amado por quem se ama traz paz, traz aconchego pra alma da gente. E porque esta certeza é tão difícil? Porque é preciso ter o tempo todo demonstrações de amor, de necessidade, de dependência? O que me fortalece, quando amo, é a força do outro. A sua integridade, independência, felicidade. Não preciso que ele dependa de mim pra nada - preciso sim, que ele queira estar comigo. E que isto seja uma opção, não uma necessidade incontrolável - porque a certeza de que meu amor está comigo porque quer assim é muito melhor do que a constatação de que ele está comigo porque depende de mim, do meu amor, da minha presença. O amor, prá mim, não gera dependência. É lindo, sim, "tu te tornas responsável pelo que cativas". Mas vejo esta responsabilidade como algo espontâneo e leve, não obrigatório e pesado. Se estou contigo, amor, é porque quero. É porque a cada amanhecer abro meus olhos e penso que escolhi estar contigo mais este dia que nasce. É porque trago no coração a certeza de que estar com você me completa e faz mais feliz. Se estou contigo, amor, é porque escolhi. E é isto que traz valor ao nosso amor: escolhemos um ao outro. E em tempo algum isto pode se tornar um jugo, porque aí perde o valor, e perde-se o amor. São quatro da manhã e estou aqui, insone, a filosofar sobre o amor - tanto pra falar, mas os sentimentos e idéias são inúmeros, e as palavras não fluem com a rapidez dos pensamentos... então, melhor apagar a luz e olhar o sono chegar. Bem devagar. Pensando no amor - e no meu amor.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Permanente, apenas a inconstância.



Sempre a mesma, renovo-me a cada dia.
Se tudo é mutável, quanto mais crenças, pensamentos, realidades, desejos, evanescentes e intangíveis?
Quanto mais eu?
Se hoje sou Penélope, amanhã posso ser Lilith. Outro dia Helena, Joana, Isabel, Evita, Elisa, Maitê, Lya; posso ser Maria, também Coco, Marilyn, Luz Del Fuego, Jaqueline, posso ser tantas e cada uma, e nenhuma, e por fim eu mesma.
Não me julgue, não me pressuponha, não me classifique.
Sou ímpar, sou única, exemplar de colecionador, primeira edição de livro raro, jóia preciosa talhada por caprichoso ourives, sou o que me proponho, o que me valido, o que me defino.
Não me gereralize e não me banalize.
Sou leonina mansa, pisciana feroz - porque hão de existir paradigmas se não para serem rompidos?
Porque limites se não para ultrapassá-los? E ir além?
Não me julgue, não me pressuponha, não me classifique

segunda-feira, outubro 06, 2008

Falando em amor...



"... vou falar de mim. Como filha e como mãe. Um pouquinho só porque sei que não conseguiria dizer tudo o que talvez seja necessário – até porque começo e meus pensamentos por vezes se dispersam. A primeira lembrança que tenho na vida sobre “o que eu quero ser quando crescer?” é: “mãe”. Depois veio “jornalista”. Mas a primeira foi “mãe”. O amor que tive por meus irmãos – os três – foi incondicional. Sandro, talvez pela pouca diferença de idade entre nós, era como um bibelô. A vida toda, quando éramos pequenos, eu o defendia de tudo e de todos. E não me lembro de uma única vez, em todas as brigas de irmãos que tivemos, que eu houvesse levantado a mão pra ele. Quando Wan chegou, eu tinha oito anos – e pra mim, Deus tinha mandado aquele menininho lindo e inteligente pra mim – era um presente de Deus pra mim. Da mesma forma, eu o defendia também – mas ele, de alguma maneira, era bem mais forte que o San. Sem contar que era o xodó de toda a família. Aí, aos meus dezoito anos, veio a Tati – e também foi como uma filha. Melhor, na verdade, pois eu não tinha obrigação de educar, só precisava amar e mimar. Mas claro, não foi só assim: quantas vezes conversamos, ela pequenininha e eu explicando porque não podia isso, porque não podia aquilo... A vida toda minha relação com meus irmãos foi de amor total e incondicional – mesmo quando, depois de crescidos, tínhamos divergências de opiniões ou entramos em atrito – porque esse amor gerou uma amizade que não tem preço. E que dá a certeza de meu lugar no mundo. E se, lá atrás, quando eu era pequenininha, tudo o que eu queria era ser mãe, com certeza é porque “mãe”, pra mim, era a melhor coisa do mundo. E pra pensar assim, eu tinha que ter a melhor mãe do mundo. E eu tive. Apesar de toda a divergência de pontos de vista que temos hoje, mamãe e eu, ela foi a melhor mãe do mundo – e eu não seria, nunca, nem a metade do que ela foi nas circunstâncias em que os filhos chegaram à sua vida. Com vinte anos mamãe tinha dois filhos e um marido irresponsável, que com o tempo se tornou alcoólatra. Veja bem, não estou aqui criticando meu pai, até porque acredito que ele foi o melhor pai do mundo – de verdade. Quando se conscientizou da importância do papel de pai, quando conseguiu se libertar do vício. E foi o melhor avô que meus filhos poderiam ter tido – sempre presente, brincando, ajudando, brigando, oferecendo colo. Não estou, de forma alguma, desmerecendo papai. Só estou contando que, por muito tempo, foi muito difícil para mamãe: casou nova; sem terminar sequer o segundo grau; porque já vinha de uma história familiar complicada (e apesar de tudo, você pode ver como ela e seus irmãos são unidos e amigos); sem profissão definida; com filhos pequenos e sem o apoio do marido. Sei que eu não teria sido metade da mãe que ela foi. Poderia contar pra você histórias e histórias sem fim de como ela fez empadas de batata e foram os salgadinhos mais deliciosos na festa da escola; de como ela saía comigo e meus irmãos pegando dois ônibus para passarmos um dia no clube; de como ela cuidou por dois anos de três filhos pequenos sendo que um, nesse período, passou por várias cirurgias e não podia nem ir ao banheiro sozinho; de como ela reformava, lavava e passava, deixando como novas as roupas usadas que ganhávamos; de como ela encheu de magia cada dia das nossas vidas com suas histórias e riso fácil; tantas histórias eu poderia contar! Mas não vem ao caso: eu só queria dizer que, se eu desejava mais que tudo na vida ser mãe, é porque eu tinha motivos mais do que suficientes pra achar que ser mãe era a melhor coisa do mundo. E eu não sabia que podia haver no mundo amor maior do que o que eu sentia por meus pais e meus irmãos – até o dia 25 de dezembro de 1985. A partir desse dia, descobri que ser mãe não é só a melhor coisa do mundo: é também a pior. Os piores medos, as piores dúvidas, os maiores anseios. E se meu filho não for ‘perfeito’? E se eu não conseguir educá-lo? E se ele ficar doente? E se ele não puder andar? E se ele não aprender a falar? E se eu não puder mandá-lo pra uma boa escola? E se ele não for inteligente? E se ele não fizer amigos? E se os amigos zombarem dele? E se algum maluco machucá-lo? E se ele não tiver namorado(a)? E se ele gostar do mesmo sexo – sim, e se ele for gay? E se ele usar drogas? E se ele resolver roubar? E se ele se meter em brigas? E se ele não entrar na faculdade? E se ele não encontrar ninguém decente pra casar? E se ele não tiver filhos? E se ele tiver filhos e estiver longe de mim? E se seu(sua) companheiro(a) não gostar de mim? E se? E se? E se? Aí, num período da minha vida, me vi sozinha com três filhos. Como se diz no Rio Grande do Sul, “mais perdida do que cuzco em procissão”. E se eu já me preocupava com eles, a partir daí essa preocupação dobrou, triplicou, sei lá. A sorte é que éramos amigos – sempre acreditei que deve haver amizade entre pais e filhos. Claro, sem esquecer o respeito e o laço mãe-filhos, ou pai-filhos. E a partir de então, essa amizade se fortaleceu. Minha amizade com Paula, Maya e Matheus sempre foi muito transparente – por mais que eu tenha errado. Sempre decidimos tudo juntos, e partilhei com eles minhas incertezas, meus medos, minhas dúvidas – por mais que isso fosse errado. E sempre tentei decidir tudo em nossa vida, principalmente quando morávamos todos juntos, de forma “democrática” e justa para todos – por mais que, muitas vezes, tenha que ter sido assertiva e impositiva. E essa amizade, essa relação, é baseada na confiança e na liberdade. Às vezes sou questionada: será que com o pai deles há essa atitude, há essa cobrança? Será que com o pai eles fazem isso, fazem aquilo? De verdade? Não me interessa. Não mesmo. Importa pra mim a relação que eles têm COMIGO – e pronto. Nunca, em momento algum da minha vida, pautei meus relacionamentos com base na comparação. E não quero, nunca, que o relacionamento dos meus filhos comigo seja igual ao comportamento deles com o pai. O nosso relacionamento – eu, Paula, Maya e Matheus – nós construímos ao longo tempo, com nossas atitudes – fossem elas altruístas, egoístas, estúpidas, como quer que fossem. E é único: com Paula, com Maya, com Matheus."
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Trecho de uma carta não enviada falando sobre meus sentimentos.
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segunda-feira, agosto 18, 2008

Presente de aniversário!


O encanto da luz. A imensidão do mar. A alegria de rir. Lucemary. Simplesmente Lucemary. (poema divino.) by Maya
(tão lindo e tão tocante pro meu coração fragilizado que merecia mais do que um lugar num simples comentário).

quinta-feira, agosto 14, 2008

Absoluta

Leonina, ascendente em peixes. Dragão no horóscopo chinês. Adaga no horóscopo cigano. Estrela no horóscopo druída. Número de destino: cinco. Filha de Ogum, sob proteção de Vehuiah. Mulher de fases. Hoje sou mais eu, mais que sempre, mais que nunca. Minuano cantante em madrugada de inverno, acalanto noturno na noite insone plena de sonhos a se realizar. Brisa suave na Bahia de Todos os Santos, sobre o mar escuro e o reflexo da lua, que envolve o corpo e faz viajar. Ar rarefeito do planalto central, sob infinitas estrelas que brilham como em nenhum outro lugar. Agitada, suave, parada. Posso ser tudo, e posso ser nada. Fluida criatura, sem rédea, sem freio, sem arreio... Balzaquiana, autêntica, absoluta. Poderosa. Hoje sou mais eu, mais que sempre, mais que nunca.

quinta-feira, julho 31, 2008

...

Amo-te tanto e não sabes como me ferem as amarras com que tentas me cercear. Sou pássaro e preciso do vôo sob o céu sobre o mar sob o sol pra viver. Liberdade é meu alimento minha força meu sustento. Se me amas como te amo solta-me os grilhões deixa-me voar!

terça-feira, julho 29, 2008

Em qualquer outro lugar...


É no mínimo muito estranho se ver pelos olhos dos outros. E pelos olhos dos nossos filhos, então? Pode ser um choque.
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"Mãe, ela lembra você."
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O comentário veio de Paula, e não se referia à aparência. E a comparação era com o personagem de um filme que assistíamos numa tarde de domingo, de preguiça e sol, e que eu estava achando abominável. Não o filme, o personagem.
Em um momento do filme, inadvertidamente e sem nenhum preparo para tal, a mãe se vê pelos olhos da filha. Meu sentimento, expresso em palavras: "bem feito!".
"Como, afinal, uma mãe pode ser assim? Querer sonhar o sonho de seus filhos, decidir a rota de suas vidas? Que absurdo isso!"
E o olhar arrevesado de Paula, no tapete, me coloca na defensiva incontinenti: "EEEUUU nunca fiz isso! Nunca sonhei os sonhos de vocês!"
O "não, mãe, claro que não" acompanhado de outro olhar extremamente eloquente (embora indecifrável) me põe maluca. Como saber se ela está sendo honesta, se está sendo irônica, se está sendo gererosa?
Aí, no fim do filme, bem no finzinho, quando a menina fala de como será o mundo quando sua mãe partir, euzinha, do alto de minha modéstia ímpar, concordo: "é, filha. Tem tudo a ver comigo!"
Suspiros: "ai, mãe."
Pior.
Em alguns momentos identifiquei-me com a mãe. Perdida, confusa, insegura, pateticamente solitária e cheia de sonhos, tentando acertar e errando, errando, errando. Caraca! Não adianta querer ser perfeita, impossível!!! É da natureza humana ser imperfeito. E por vezes, sou humana em demasia - com grande dificuldade em conciliar as diversas personagens que convivem em mim: a mãe, a mulher, a profissional, a irmã, a sonhadora, a filha, a amiga, a amante, tantas! Tantos conflitos!
...
E penso que, afinal, deve ser mesmo assim.
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Embora continue sendo um choque se vislumbrar através de outros olhos - principalmente quando são olhos que você gerou.

quinta-feira, julho 24, 2008

"A MASSAI BRANCA"

Então ontem assisti a um filme com Paulinha, e após três ou quatro filmes assistidos pela metade (sim, eu dormia em algum momento!), o de ontem assisti todo. Completamente desperta e envolvida pela história, pela fotografia, pelos personagens. E esse filme me fez lembrar Vera, e nossa última conversa via depoimentos no Orkut. Eu ia escrever mais e mais sobre o filme, que gostei muito e que me disse muito, mas... se escrever, minha conversa confidencial com Vera deixa de ser confidencial. Então, agora só quero dizer que o filme é ótimo. Tudo bem, sei que não sou nenhuma crítica de cinema (nem almejo tal coisa!), mas como alguém que gosta (muito) da sétima arte, e como pessoa, adorei o filme. Recomendo. ... Vera, assista ao filme. Aí conversamos mais sobre questões existenciais, ok? ...

quarta-feira, julho 23, 2008

Inverno na Bahia

Essa chuva esse frio essas tardes sem sol Adicionar vídeo E esse vazio essa falta de tesão pela vida Resultam em suspiros em angústias em vazios que não sei preencher.

sexta-feira, julho 04, 2008

Tanto mar...


É o nome de uma música do Chico, que fala da revolução dos cravos, em Portugal. E que amo. Remete também à música "amo tanto e de tanto amar acho que ela é bonita..." Numa lan, depois de duas roscas (deliciosas, de morango), sob o peso de uma saudade imensa de coisas intangíveis... como passear no shopping (McDonalds, Fredíssimo, cinema), como discutir dúvidas existenciais, como falar de moda e rir de coisas bobas, como discutir livros na vitrine, como olhar o que tem de bom e de ridículo na moda da estação, como reafirmar que é bom ter personalidade (ou pelo menos se iludir que tem...), como fazer palavras cruzadas, como jogar stop, como ter crises de riso sem quê nem porquê... e de coisas tangíveis, como seu riso (como assim, seu riso não é tangível???? Tudo bem, não vou discutir com uma quase física...), como a bagunça organizada do seu guarda roupa, como seu abraço, como sua presença (e sim, sua presença é total e completamente tangível pra mim)... leio seus posts no seu blog, e me preocupo... será que você herdou de mim essa inquietude, essa insatisfação (ops, não! Não sou insatisfeita... diria mais esse questionamento eterno...)... não, você não herdou nada. Coisa idiota essa de mãe querer dizer que o filho herdou o de melhor dela... ou o de pior, sabe-se lá... coisa bem idiota! ~Você não herdou nada, tem suas próprias dúvidas, seus próprios questionamentos, você é mais do que uma herdeira... você é muito mais do que isso... muito melhor que isso... eita que eu ia falar mais, mas tocou o celular e era seu padrinho tomando umas e falando como você já sabe... aí, perdi o fio da meada... mas acho que o que eu queria falar era que, apesar de saber de sua inquietude e de toda insatisfação que ela gera, sei que você é mais feliz assim do que se fosse uma menininha dessas de sonho cor de rosa que acha tudo lindo, não questiona nada e se conforma com pouco... aliás, o nome desse texto devia ser Maya. Ou recadinho para Maya.

sábado, fevereiro 02, 2008

"Nossa casa...


...é como nossa fotografia mais verdadeira." (Márcia Carvalho - maeducacao.blogspot.com)

Então eu estava procurando uma imagem pra postar aqui, e a partir dela, escrever. Em meu coração a vontade era escrever sobre mudançaS, assim mesmo, no plural e com S maiúsculo, falar sobre tantas mudanças ocorridas em minha vida nos últimos tempos e tantas outras que se anunciam; não apenas mudanças geográficas, principalmente outras, internas, de dimensões infinitamente superiores... mas aí, topei com o blog acima, um texto de 01/10/2007 cujo título é "transportar com cuidado", que todo mundo devia ler, e que amei. E que me tirou toda a inspiração de falar de mudança: não por nada, sim porquê amei o texto, e li e reli, e parece falar tão de mim e de coisas que sinto e penso que... nem sei mais o que escrever.
Mas prá não ficar sem postar, já que depois de tanto tempo me animei hoje, fiz esta anotação prá constar.